O Tribunal Superior Eleitoral cancelou na quinta-feira, 13 de agosto, o registro que havia transferido o senador Flávio Bolsonaro do Partido Liberal para o Partido Missão, restabeleceu o vínculo original do parlamentar com a legenda desde 30 de novembro de 2021 e liberou o sistema eleitoral para que o PL protocolasse a candidatura dele à Presidência da República. O pedido de registro da chapa, encabeçada pelo senador e com o deputado federal Alfredo Gaspar como vice, foi apresentado na noite do mesmo dia, dois dias antes do fim do prazo legal.
O episódio começou na madrugada anterior. Segundo os documentos citados na decisão, entre as 23h17 de quarta-feira, 12 de agosto, e a manhã de quinta-feira, um novo lançamento no Sistema de Filiação Partidária, conhecido como Filia, desligou Flávio Bolsonaro do PL e o inscreveu no Missão, agremiação que já tem candidato próprio à Presidência, Renan Santos. A mudança provocou a desfiliação automática e travou o Sistema Candex, por onde os partidos protocolam os pedidos de registro. A advogada da campanha, Maria Claudia Bucchianeri, afirmou que a equipe só percebeu a alteração ao reunir a documentação exigida e classificou a mudança como fraudulenta.
Toda a cobertura converge em três pontos. O TSE negou que tenha havido invasão de seus sistemas e atribuiu a alteração ao uso indevido da ferramenta por alguém que detinha credenciais do Partido Missão. O presidente da Corte, ministro Kassio Nunes Marques, enviou representação à Procuradoria-Geral Eleitoral, determinou a preservação dos registros de acesso e requisitou inquérito da Polícia Federal para apurar autoria e circunstâncias. E, ao decidir, o ministro sustentou que a filiação partidária é condição de elegibilidade prevista na Constituição e não pode ser suprimida por ato de terceiro estranho à vontade do filiado, considerando inverossímil uma migração voluntária para um partido que já lançou concorrente ao mesmo cargo.
A cobertura de centro tratou o caso como falha de segurança no cadastro eleitoral e deu espaço à versão do Partido Missão, que se declarou vítima da tentativa de filiação, afirmou ter comunicado o gabinete do senador desde 2 de agosto, disse que seu pedido de cancelamento no mesmo dia foi rejeitado pelo tribunal e sustentou não ter interesse em receber o parlamentar em seus quadros. Esses veículos também lembraram o precedente de 2023, quando o nome do presidente Luiz Inácio Lula da Silva apareceu no cadastro como filiado ao PL e a investigação apontou um adolescente de 13 anos como responsável pela inserção de dados falsos.
Veículos de direita enfatizaram o risco à candidatura da oposição e a leitura do próprio senador, que falou em fraude e em uma armação do sistema para impedi-lo de disputar o pleito, além de destacarem a manifestação do presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, sobre falsificação. Nesse enquadramento, o ponto central é a vulnerabilidade de um cadastro público que permitiu desligar um pré-candidato notório de seu partido a menos de 48 horas do prazo, e a rapidez da resposta judicial aparece como reparação de um dano que não deveria ter sido possível. Veículos de esquerda não figuram entre as fontes que cobriram o episódio neste conjunto de matérias, e por isso nenhuma leitura é atribuída a eles.
Permanecem em aberto pontos centrais. Não se sabe quem operou as credenciais do Partido Missão, como esse acesso foi obtido nem se houve dolo, compra de senha ou negligência de guarda. Também não há explicação pública sobre por que o pedido de cancelamento feito pela própria legenda foi recusado pelo tribunal no dia da inserção, nem sobre quantos outros registros podem ter sido alterados pelo mesmo caminho. O prazo para o registro de candidaturas termina no sábado, 15 de agosto, às 19h, e o inquérito da Polícia Federal ainda não tem conclusão.