O senador Flávio Bolsonaro, escolhido pelo Partido Liberal para disputar a Presidência em outubro, ficou impedido de protocolar o registro de sua candidatura na quinta-feira, 13 de agosto, depois que o sistema de filiação partidária da Justiça Eleitoral passou a apontá-lo como integrante do partido Missão, legenda que tem candidatura própria com Renan Santos. Como ninguém pode concorrer por uma sigla à qual não está filiado, o pedido de registro travou a dois dias do prazo final. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Kassio Nunes Marques, determinou o restabelecimento imediato da filiação ao Partido Liberal, encaminhou representação à Procuradoria-Geral Eleitoral e mandou instaurar inquérito policial.
O tribunal descartou publicamente a hipótese de invasão. Em nota, afirmou que a filiação não resultou de hackeamento do sistema, e sim do uso indevido da ferramenta por alguém que possuía as credenciais do partido Missão para efetivar filiações. O acesso a esse cadastro é restrito a representantes de legendas. A advogada da campanha, Maria Claudia Bucchianeri, disse ter em mãos certidão de filiação ao Partido Liberal emitida às 23h17 de quarta-feira, o que situa a alteração depois desse horário, e pediu a preservação de logs de acesso, identificação de usuários, credenciais, endereços IP, datas e horários. O partido Missão declarou-se vítima de uma tentativa de filiação fraudulenta, afirmou ter comunicado o gabinete do senador em 2 de agosto e prometeu entregar às autoridades um relatório com logs, e-mails e endereços IP. O prazo para partidos, federações e coligações registrarem candidaturas termina às 19h do sábado, 15 de agosto.
A cobertura de centro concentrou-se na cronologia verificável e na apuração técnica. Esses veículos ouviram especialistas em segurança da informação: um professor de instituto de informática defendeu que o sistema passe a exigir uma verificação com o próprio eleitor antes de processar o pedido de filiação, reconhecendo que isso tornaria o procedimento mais lento; um executivo de cibersegurança comparou o caso a alguém que entra num prédio protegido usando crachá válido e argumentou que uma credencial legítima não significa necessariamente um usuário legítimo. A mesma cobertura recuperou o precedente de 2023, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi filiado indevidamente ao Partido Liberal e a Polícia Federal concluiu que um adolescente de 13 anos havia inserido dados falsos no sistema, sem ataque hacker. Também deu espaço à versão do partido acusado: Renan Santos afirmou em entrevista coletiva que a confirmação da filiação passou pelo e-mail institucional do senador e que oito mensagens foram enviadas a esse endereço, ao menos quatro delas abertas. A assessoria do senador foi procurada e não respondeu.
Veículos de direita enfatizaram outro ângulo: o efeito prático da falha sobre uma candidatura presidencial competitiva e o risco de que terceiros consigam interferir em quem pode concorrer. Nessa cobertura ganharam destaque a fala do senador de que 'o sistema' tentaria detê-lo sem sucesso, o acionamento da Polícia Federal pela campanha antes do fim do prazo e a lista dos candidatos que já haviam conseguido registrar suas chapas. O foco recai sobre responsabilização penal e sobre a exigência de que a Justiça Eleitoral prove a integridade do cadastro, não sobre o debate de desenho técnico. Não há, no conjunto de matérias reunido até agora, cobertura de veículos de esquerda sobre o episódio, o que caracteriza um ponto cego desse lado do espectro.
O que ainda não se sabe é quem operou a credencial. O tribunal afirma que houve uso indevido por quem tinha acesso legítimo, mas não identificou a pessoa; o partido Missão diz que os indícios apontam para um terceiro e registra que o cadastro trazia dados fictícios, como um endereço inexistente no Rio de Janeiro. Também seguem em aberto se o e-mail institucional do senador foi de fato usado para confirmar a filiação e por quem, se houve tentativas paralelas envolvendo outras legendas, quanto tempo levará o inquérito e se o Tribunal Superior Eleitoral vai alterar o sistema de filiação antes da eleição.