A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República apresentou nesta semana, em São Paulo, o núcleo da agenda econômica que pretende executar caso vença a eleição de 2026. A exposição coube à economista Daniella Marques, coordenadora econômica da candidatura, ex-presidente da Caixa Econômica Federal e ex-secretária especial de Produtividade e Competitividade do Ministério da Economia no governo de Jair Bolsonaro. Segundo ela, os primeiros 100 dias de mandato seriam concentrados em uma PEC fiscal, em corte de impostos e de burocracia, no que chamou de tesouraço, e em uma reforma do Estado com quatro pilares.
O anúncio se deu em dois eventos consecutivos. Na segunda-feira, 24 de agosto, em uma premiação empresarial no Palácio Tangará, na Zona Sul da capital paulista, o candidato do PL afirmou que montaria um time de ministros formado por homens e mulheres que, nas palavras dele, não vão se servir do dinheiro público. Na mesma frase citou nominalmente Daniella Marques, que estava presente, integra o grupo que elaborou o programa econômico e chegou a ser cotada como vice na chapa. No dia seguinte, em encontro promovido pelo Movimento Brasil Competitivo, a economista detalhou as propostas.
Os pilares apresentados são a digitalização dos serviços públicos, a reorganização da estrutura administrativa, a gestão dos imóveis da União e mudanças na governança das estatais. Marques sustentou que o país mantém uma coleção de ministérios, em número maior que o da Venezuela, e milhares de repartições custeadas pelo contribuinte que não resolvem o problema do cidadão, tendo como espelho as filas do INSS e das creches. Citou 760 mil imóveis no balanço da União, com valor contábil superior a R$ 1,7 trilhão segundo dados do Tesouro, parte deles abandonada e ainda gerando despesa de aluguel e manutenção. Defendeu também a retomada da reforma administrativa e da privatização dos Correios, iniciativas que ficaram sem conclusão na gestão anterior, a revisão de marcos regulatórios e o fortalecimento da Lei das Estatais, com receitas extraordinárias divididas entre redução da dívida pública, investimento em infraestrutura e formação de patrimônio pela população.
Os dois blocos de cobertura disponíveis convergem nos fatos e divergem no que escolhem iluminar. A cobertura de centro relatou o episódio pela chave da montagem de equipe, com foco na declaração do candidato sobre os futuros ministros e na trajetória profissional da economista citada, sem entrar no mérito das medidas. Veículos de direita enfatizaram o conteúdo econômico, o vocabulário de corte de carga tributária e de máquina pública inchada, e trataram o patrimônio imobiliário ocioso como caso de má gestão a ser desfeito. Veículos de esquerda não registraram o anúncio no material disponível, de modo que o ângulo que costuma organizar esse campo, o efeito do corte de impostos e da privatização sobre o financiamento de serviços públicos e sobre o atendimento de quem não tem acesso digital, ficou sem porta-voz nesta rodada.
O que ainda não se sabe é a parte mais concreta. A campanha não disse quais impostos seriam reduzidos nem qual perda de arrecadação isso implicaria, não apresentou o texto ou o desenho da PEC fiscal, não indicou quais imóveis da União seriam vendidos, concedidos ou redestinados, nem por qual mecanismo, e não informou quais ativos gerariam as receitas extraordinárias ou os percentuais destinados a cada frente. Também não está definido se Daniella Marques ocuparia um ministério em um eventual governo. O desenho final das medidas depende do detalhamento do programa de governo e, em vários pontos, de aprovação pelo Congresso Nacional.