O senador Flávio Bolsonaro, candidato do Partido Liberal à Presidência da República, afirmou na quinta-feira, 20 de agosto de 2026, que pretende entrar para a história 'nem que seja como presidente de transição'. A frase foi dita durante um almoço com cerca de 450 empresários e comerciantes em um restaurante na Mooca, zona leste de São Paulo, ao lado do governador Tarcísio de Freitas e do prefeito Ricardo Nunes. Era a primeira agenda pública de rua do candidato na capital paulista depois da confirmação de sua candidatura.
No mesmo discurso, o senador disse olhar 'com nojo' para o Supremo Tribunal Federal, afirmou que 'as coisas acontecem de forma impune' na Corte e sustentou que só a troca do presidente da República e da bancada de senadores mudaria esse quadro. Prometeu, se eleito, indicar quatro ministros ao tribunal, homens e mulheres contrários ao aborto e à descriminalização das drogas, que respeitem a Constituição e não usem o cargo para perseguir adversários. Aos comerciantes presentes, prometeu reduzir a carga tributária, cortar despesas do governo e reequilibrar as contas públicas para derrubar a taxa de juros.
Horas antes, em sabatina de candidatos ao governo paulista, Tarcísio de Freitas havia afirmado que Flávio Bolsonaro assumiu compromisso com mandato único ao protocolar a proposta de emenda à Constituição que acaba com a reeleição, e que acredita que ele vai honrar o gesto por ser signatário do texto. O governador, cotado por setores do empresariado antes de Jair Bolsonaro escolher o filho como herdeiro político, evitou tratar de 2030 e disse que primeiro é preciso superar 2026. Em outro registro do mesmo dia, um vídeo publicado com o deputado federal Nikolas Ferreira, o candidato disse ao parlamentar que ele tem potencial para ser presidente da República no futuro.
A cobertura de centro convergiu na descrição dos fatos: as aspas do discurso, a presença dos três políticos no palanque, o pedido do prefeito para que candidatos da coligação incluíssem os números de urna nos materiais de campanha, os protestos que acompanharam as agendas da manhã e a resposta do senador sobre a prestação de contas do filme 'Dark Horse', que recebeu R$ 61 milhões de Daniel Vorcaro, do Banco Master, e cujos repasses estão sob investigação da Polícia Federal. Ele afirmou que o assunto é 'página virada', que a prestação de contas 'estava tudo certinho' e transferiu a cobrança para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Parte dessa cobertura acrescentou verificação própria: pela idade mínima constitucional de 35 anos aferida na data da posse, o deputado elogiado como futuro presidenciável só poderia disputar o cargo em 2034, e não em 2030.
A divergência aparece no significado atribuído ao gesto. Veículos de direita enfatizaram o desprendimento: aceitar um mandato só seria coerência com a emenda que o próprio candidato assinou e daria a um presidente liberdade para tomar decisões impopulares. Nessa leitura, a crítica ao Supremo é reação legítima a um tribunal sem controle, a promessa de novas indicações é caminho para restaurar segurança jurídica, e o palanque com o governador mais bem posicionado no maior colégio eleitoral do país é o ativo decisivo de uma disputa apertada. Veículos de esquerda destacaram a inconsistência: a proposta de fim da reeleição foi apresentada no início do ano, em maio o candidato disse que seu governo poderia durar 'quatro, cinco ou oito anos', em agosto inscreveu o fim da reeleição no plano de governo registrado no Tribunal Superior Eleitoral e agora fala em transição sem definir o termo. Nessa chave, o aceno é arranjo interno de sucessão com Tarcísio de Freitas, e o filtro ideológico anunciado para indicações ao Supremo é pressão sobre a independência judicial, num momento em que Jair Bolsonaro cumpre pena de 27 anos e 3 meses por tentativa de golpe de Estado.
O que ainda não se sabe é o essencial. O candidato não explicou o que entende por transição, nem se a expressão significa mandato único, e a proposta de emenda que tornaria isso obrigatório depende de aprovação no Congresso, com efeito pretendido já para o mandato iniciado em 2027. Também segue em aberto quantas vagas no Supremo caberiam de fato ao próximo presidente, se a produtora do filme apresentará prestação de contas detalhada com notas fiscais e financiadores, e qual será o desfecho da investigação da Polícia Federal sobre os repasses do Banco Master.