Dois levantamentos eleitorais divulgados em dias seguidos desenharam cenários bastante diferentes das disputas de 2026 no Amapá e no Distrito Federal. No Amapá, pesquisa do instituto Quaest divulgada em 25 de agosto aponta Dr. Furlan (PSD) com 55% das intenções de voto para o governo do estado, contra 35% de Clécio Luís (União Brasil). Jairo Palheta (PCO) marca 1%, Carlos Cley (PSTU) e Delegado Marcos (DC) não pontuam, e os indecisos somam 8%. No cenário simulado de segundo turno, a distância se mantém praticamente igual: 54% a 36%.
No Distrito Federal, o Instituto Gazeta de Pesquisa (Igape) mediu a corrida à Câmara Legislativa e colocou Chico Vigilante (PT) na liderança, seguido por Joaquim Roriz Neto (PL), com 4,2%, e Fernando Fernandes (Republicanos), com 3,6%. Na sequência aparecem Jaqueline Silva (MDB), com 3,4%, Pepa (PP), com 3,2%, e Pastor Daniel de Castro (PP), com 3,1%. São mais de sessenta nomes medidos para 24 vagas de deputado distrital, e 28,3% dos entrevistados disseram não saber ou não quiseram opinar.
As duas coberturas convergem no essencial, que é a ficha técnica. A Quaest ouviu 804 eleitores amapaenses entre 21 e 24 de agosto, com margem de erro de três pontos percentuais para mais ou para menos e nível de confiança de 95%; o levantamento está registrado na Justiça Eleitoral sob o número AP-09438/2026 e foi encomendado por um grupo de comunicação regional. O Igape ouviu 2.000 eleitores do Distrito Federal entre 18 e 22 de agosto, com margem de 2,2 pontos percentuais, o mesmo nível de confiança de 95% e registro DF-09414/2026. Nenhum dos dois textos ouviu candidatos ou apresentou índices de rejeição.
A divergência está menos no julgamento dos números e mais na escolha do que cobrir. Veículos de direita concentraram a atenção na disputa distrital, publicando a lista integral dos concorrentes, inclusive dezenas de nomes com menos de 1%, num retrato de eleição pulverizada em que a maior parte do eleitorado ainda não tem candidato. Veículos de esquerda trataram do Amapá e colocaram em relevo a possibilidade de decisão em primeiro turno, além de informarem quem encomendou o levantamento, dado que permite ao leitor avaliar o interesse por trás da pesquisa. Já o tom das duas matérias permaneceu no registro de centro: a cobertura de centro que resulta desse tipo de material se limita a reproduzir tabela, período de campo e número de registro, sem interpretar tendência nem qualificar candidatos.
As leituras ideológicas possíveis também se separam. Do ponto de vista da esquerda, a força do registro obrigatório no TSE é o ponto central, porque submete o instituto a padrão metodológico auditável, e o índice de quase um terço de eleitores sem opinião no Distrito Federal expõe o quanto o Legislativo local segue distante de quem paga a conta dele. Do ponto de vista da direita, a vantagem de vinte pontos de Dr. Furlan é lida como voto consolidado que pode encerrar a eleição em primeiro turno e poupar o custo de mais uma rodada de campanha, enquanto a dispersão entre dezenas de candidaturas no Distrito Federal é apresentada como sintoma de excesso de legendas e de baixa eficiência do sistema proporcional.
O que ainda não se sabe é considerável. Nenhum dos levantamentos publicados traz índice de rejeição, avaliação de governo ou recorte da amostra por região, renda e escolaridade. Também não há comparação sistemática com pesquisas anteriores das mesmas disputas, o que impediria afirmar se há movimento ou estabilidade. No caso distrital, o percentual atribuído ao primeiro colocado aparece de duas formas diferentes ao longo do mesmo texto, sem que se explique a divergência, e nenhuma fonte esclarece qual é o número correto. Por fim, não se sabe como o eleitorado indeciso, que é a maior fatia isolada da pesquisa do Distrito Federal, deve se distribuir até a votação.