O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva intensificou, nas últimas semanas, as negociações com os Estados Unidos para tentar evitar a aplicação de uma sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros, prevista pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) com base em uma investigação sob a Seção 301 da lei comercial americana. O processo, aberto há um ano, concluiu que o Brasil adota práticas discriminatórias em áreas como comércio digital, pagamentos eletrônicos, propriedade intelectual, etanol e desmatamento, com o sistema Pix como um dos pontos centrais de atrito.
Até 1º de julho, o governo brasileiro protocolou junto ao USTR uma manifestação formal argumentando que a tarifa proposta não tem respaldo nas regras de comércio internacional, prejudica também interesses econômicos americanos e reduz o espaço para o diálogo bilateral. Paralelamente, em reunião de 2 de maio entre o ministro Márcio Elias Rosa e o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, o Brasil apresentou um plano concreto de negociação: reduzir tarifas de importação em cerca de 300 linhas de produtos, sobretudo em máquinas, tecnologia da informação e equipamentos hospitalares, e ampliar garantias nas seis áreas sob investigação. O Pix e temas de política interna, como decisões do Supremo Tribunal Federal e questões ligadas à família do ex-presidente Jair Bolsonaro, permaneceram fora da mesa.
Uma audiência pública do USTR em Washington, no dia 7 de julho, expôs divergências na leitura política do episódio. Veículos de esquerda destacaram que a defesa do Pix e a recusa em discutir assuntos internos representam resistência do governo a uma tentativa de setores econômicos americanos de impor regras ao sistema financeiro brasileiro, e associaram a origem da investigação à articulação do senador Flávio Bolsonaro e de seu irmão, o deputado cassado Eduardo Bolsonaro, junto a autoridades dos Estados Unidos. Já a cobertura de centro relatou, com base em documentos oficiais, que 78 entidades e pessoas físicas participaram da consulta pública, sendo 63 contrárias ao tarifaço e 15 favoráveis, e que o governo brasileiro optou por não enviar representante à audiência por considerá-la voltada ao setor privado. Veículos de direita, por sua vez, enfatizaram justamente essa ausência oficial como contraponto à participação do senador Flávio Bolsonaro na sessão, apresentada por ele como defesa dos interesses brasileiros, e questionaram a rigidez do governo em manter o Pix fora de qualquer negociação diante do risco concreto às exportações.
O episódio também expôs um confronto direto entre o Palácio do Planalto e o senador. Em nota, o governo classificou a participação de Flávio como tentativa de legitimar os resultados de uma investigação injusta e citou o envolvimento da família Bolsonaro no caso do Banco Master e no rombo bilionário do INSS para questionar sua isenção no episódio.
A decisão final do governo americano sobre a aplicação da sobretaxa de 25% está prevista para 15 de julho. Até lá, seguem em aberto o teor completo da proposta brasileira, mantida sob sigilo, e se as tratativas técnicas entre os dois países serão suficientes para evitar a tarifa antes do prazo.