O governo dos Estados Unidos indicou Daniel Perez para chefiar a embaixada norte-americana em Brasília sem pedir previamente o aval do governo brasileiro, rompendo com um procedimento consagrado nas relações entre Estados. A designação foi feita em 1º de junho e tornada pública antes da consulta reservada que, pela praxe, deveria precedê-la. Nesta terça-feira, 4 de agosto, o Departamento de Estado norte-americano revogou o visto de Maria Luiza Viotti, chefe da representação brasileira em Washington, e apontou como justificativa a suposta demora brasileira em conceder o aval ao indicado.
O procedimento em questão chama-se agrément. Pela Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas, o país que pretende enviar um embaixador consulta de forma reservada o governo anfitrião antes de anunciar o nome. A consulta permite examinar antecedentes, condutas e posicionamentos do indicado, e só depois da resposta positiva a escolha é tornada pública. A finalidade do rito é evitar constrangimento entre os dois Estados: quando o nome vem antes do aval, uma eventual recusa deixa de ser um assunto interno e vira crise aberta.
Até o momento, apenas um veículo cobriu o episódio com esse recorte, e a matéria descreve a inversão do rito como gesto passível de leitura como pressão ou descortesia com o país anfitrião. Segundo interlocutores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ouvidos pela reportagem, não há prazo definido para a resposta brasileira ao pedido de aval. A avaliação dentro do governo, ainda conforme esses interlocutores, é que critérios políticos e ideológicos não entram no cálculo da decisão, e o exame se limitaria ao perfil do indicado.
Maria Luiza Viotti comanda a embaixada do Brasil em Washington desde 2023, quando foi indicada pelo presidente Lula, e é a primeira mulher a ocupar o posto. A revogação do visto de uma chefe de missão é medida rara e atinge diretamente a capacidade de trabalho da representação brasileira no país. O episódio se soma a outros momentos de atrito recentes entre os dois governos, embora a reportagem não detalhe quais foram.
Vários pontos seguem em aberto. Não se sabe quando o Brasil responderá ao pedido de aval, nem se a resposta será positiva. Também não está esclarecido se Viotti permanecerá no cargo, de que forma exercerá a função sem visto válido, e se o Itamaraty adotará alguma medida recíproca. O perfil e a trajetória de Daniel Perez não foram detalhados, e não há registro de manifestação oficial do lado norte-americano além da justificativa apresentada nesta terça-feira. Enquanto o aval não é concedido nem negado, a embaixada dos Estados Unidos em Brasília segue sem embaixador titular empossado.