O candidato do PT ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, afirmou na quinta-feira, 20 de agosto de 2026, que a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência representa um risco institucional para o país e que o governador Tarcísio de Freitas, candidato à reeleição pelo Republicanos, presta um desserviço ao próprio estado ao apoiar o bolsonarismo. A declaração foi dada em sabatina transmitida por um programa de televisão e levou para o centro da disputa paulista um tema nacional: o alinhamento do governador com a família Bolsonaro.
Ex-ministro da Fazenda, Haddad disse considerar Flávio Bolsonaro um risco do ponto de vista econômico, ético e social, e sustentou que o ex-presidente Jair Bolsonaro não ajudou o estado de São Paulo ao longo de quatro anos de mandato. Afirmou ainda que, na sua gestão à frente da Fazenda, São Paulo recebeu quatro vezes mais recursos do que no período anterior, e que a renegociação das dívidas dos estados com a União reduziu em R$ 12 bilhões o gasto paulista apenas com juros.
No dia seguinte, em outra sabatina, Tarcísio de Freitas minimizou a falta de apoio de partidos do Centrão à candidatura de Flávio Bolsonaro. Segundo o governador, as legendas priorizaram a eleição para a Câmara dos Deputados, com o objetivo de ampliar suas bancadas. Ele também procurou se descolar das críticas ao sistema eletrônico de votação feitas por integrantes da família Bolsonaro, ao afirmar que confia na segurança das urnas, que, segundo ele, foram as mesmas que o elegeram.
A cobertura de centro concentrou-se nesse movimento de acomodação política: a ausência do Centrão na aliança presidencial, o esforço do governador para separar a própria candidatura do questionamento às urnas e o cálculo dos partidos com as bancadas na Câmara. Veículos de direita deram mais espaço ao conteúdo programático das declarações de Haddad, reproduzindo em detalhe suas críticas às privatizações paulistas, à letalidade policial e ao ensino médio estadual, além das cifras que ele atribui à própria passagem pelo governo federal. Até o momento, veículos de esquerda não haviam repercutido o embate no material analisado.
Nas mesmas entrevistas, Haddad detalhou propostas. Defendeu um comitê interinstitucional entre governo estadual e federal contra o crime organizado, presidido pelo governador e com assentos para a Polícia Federal e a Receita Federal, sob o argumento de que sem cooperação com a administração federal é impossível deter as facções. Citou ainda o registro de boletim de ocorrência por aplicativo de mensagens e cobrou transparência no uso de câmeras corporais pela Polícia Militar, afirmando que os equipamentos têm sido desligados no momento do confronto. Disse que a letalidade policial quase dobrou na gestão atual e classificou como cortina de fumaça a promessa de aumento de penas, ao sustentar que menos de 5% dos crimes cometidos no país são punidos.
No campo econômico, o petista afirmou que a agenda de privatizações do estado é açodada e voltada a agradar o mercado financeiro. Citou a Sabesp, que segundo ele elevou a conta de água e piorou o serviço depois de privatizada, e defendeu renegociar contratos de concessão de linhas de trem. Também disse que São Paulo concede benefícios fiscais a empresários que não precisam deles. Na educação, afirmou que o ensino médio, de responsabilidade estadual, está patinando, que praticamente metade dos professores não passou por concurso e que a infraestrutura das escolas precisa ser refeita.
O que ainda não se sabe é como o governador responderá às acusações específicas sobre privatizações, segurança e educação, já que não há réplica registrada até agora. Também não está definido se os partidos do Centrão declararão apoio formal a Flávio Bolsonaro, nem qual será a posição pública da candidatura presidencial sobre o sistema de votação depois da declaração do governador. Os números citados sobre letalidade policial, tarifas de água e repasses federais não foram checados de forma independente no material analisado.