O Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos, conhecido pela sigla ICE, pretende equipar seus agentes com luvas capazes de aplicar choques elétricos em pessoas detidas durante operações de fiscalização migratória. O plano consta de um aviso publicado na segunda-feira, 10 de agosto de 2026, pelo Departamento de Segurança Interna americano, o DHS, e prevê gasto de até 20 milhões de dólares na compra de milhares de aparelhos até março.
Os equipamentos aparecem no documento oficial como dispositivos condutores de distração e desescalada. São as luvas batizadas de G.L.O.V.E., sigla em inglês para emissor de voltagem de baixa intensidade gerada, fabricadas pela empresa Compliant Technologies. Segundo a fabricante, elas funcionam como um par comum de luvas de patrulha até que o agente aperte um botão e ative o modo elétrico. Para produzir efeito, precisam tocar diretamente a pele da pessoa abordada e provocam um estímulo doloroso que, de acordo com a companhia, costuma levar à obediência em segundos. O dispositivo já vinha sendo usado por presídios e por alguns departamentos de polícia americanos, e o agente precisa concluir um curso e renovar a certificação a cada dois anos para portá-lo.
A cobertura de centro relatou o caso de forma descritiva, apoiada no aviso oficial e nas falas dos envolvidos. Registrou que a própria fabricante veta o uso do equipamento como punição, contra quem apenas demonstre desobediência verbal ou comportamento hostil, e contra grupos de alto risco, como crianças, mulheres grávidas, idosos e pessoas com deficiência. Também trouxe a avaliação de um pesquisador de mortes sob custódia, que descreveu o choque como imediato e agudo, comparável a uma picada de abelha, e argumentou que a ferramenta encurta confrontos e beneficia agentes menores, mais velhos ou fisicamente mais frágeis.
Veículos de esquerda destacaram o contexto de repressão migratória do governo Donald Trump e o histórico de queixas sobre uso da força pelo ICE, com pouca supervisão e pouca responsabilização. Nesse enquadramento, o ponto central não é a especificação técnica do aparelho, e sim o ambiente em que ele será usado. A vice-diretora do projeto de policiamento da União Americana pelas Liberdades Civis afirmou que o público não deveria ter nenhuma confiança de que os agentes usarão o dispositivo de maneira adequada, questionou por que a fiscalização civil da imigração precisaria de um instrumento desses e alertou que a dor pode ser infligida sem aviso prévio e sem que ninguém consiga ver o que ocorre durante a abordagem.
Até o fechamento desta edição, veículos de direita não haviam publicado cobertura própria sobre a compra. A divergência disponível, portanto, se organiza entre as duas leituras presentes no material apurado. De um lado, a ênfase no risco de abuso e na ausência de controle externo sobre um órgão já criticado pelo uso da força. De outro, a apresentação do equipamento como alternativa menos letal, com uso prévio em prisões e polícias, exigência de treinamento e restrições declaradas pelo próprio fabricante.
Vários pontos seguem em aberto. O DHS informou que preparava resposta ao questionamento da agência de notícias e não se manifestou de imediato, e o fundador da fabricante respondeu por e-mail que não poderia falar sobre o assunto. Não há informação pública sobre quantas luvas serão efetivamente compradas, em quais unidades e operações elas serão distribuídas, que protocolo de registro e auditoria vai acompanhar cada acionamento, nem se existirá algum mecanismo de reparação para quem for submetido ao choque de forma indevida. Também não se sabe se o contrato já tem fornecedor definido ou se ainda passará por disputa aberta.