O Irã acusou os Estados Unidos de violar o memorando de entendimento firmado em 18 de junho de 2026, acordo que havia encerrado a guerra iniciada após a ofensiva norte-americana e israelense contra o país. A nova acusação veio depois de uma rodada de bombardeios dos EUA, na virada de sexta para sábado, contra instalações de vigilância costeira no sul do território iraniano. Foi a primeira troca de ataques diretos entre os dois países desde a assinatura do acordo, marcando uma reabertura preocupante das hostilidades no Oriente Médio.
Em comunicado, o Ministério das Relações Exteriores do Irã afirmou que os ataques representam uma violação do parágrafo 4 do Artigo 2 da Carta das Nações Unidas e da primeira cláusula do memorando de paz. Teerã invocou o direito à legítima defesa previsto no Artigo 51 da Carta da ONU e declarou que a Guarda Revolucionária retaliou alvos ligados às forças dos Estados Unidos nas proximidades do Estreito de Ormuz. Drones e mísseis iranianos também atingiram alvos no Kuwait e no Bahrein, que classificou a ação como ataque a alvos civis.
Do outro lado, o Comando Central dos Estados Unidos, o Centcom, afirmou que os bombardeios foram uma resposta a um ataque com drones atribuído ao Irã contra um navio de carga, o M/V Ever Lovely, que cruzava o Estreito de Ormuz. Segundo Washington, aeronaves atingiram depósitos de drones, mísseis e bases de radar costeiras, em uma operação descrita como reação a uma agressão não provocada contra a navegação comercial. O presidente Donald Trump afirmou que o Irã agiu de forma insensata e, em publicação na rede Truth Social, ameaçou ampliar a ofensiva, chegando a declarar que a República Islâmica deixará de existir se mantiver os ataques.
Veículos de esquerda destacaram o enquadramento de Teerã, apresentando os Estados Unidos como a parte que rompeu o acordo de paz e violou o direito internacional, e tratando a resposta militar iraniana como exercício legítimo de soberania diante de uma agressão coordenada com Israel, que também teria atacado o Líbano. A cobertura de centro, por meio de despachos de agência, relatou os fatos atribuindo cada alegação à sua fonte, com paridade entre a denúncia iraniana e a versão de Washington sobre o ataque ao petroleiro. Veículos de direita tendem a enfatizar a responsabilidade do Irã pela ruptura do cessar-fogo e pela ameaça à liberdade de navegação no Estreito de Ormuz, corredor vital para o comércio internacional, lendo a reação americana como resposta firme e necessária.
O governo iraniano responsabilizou Washington pelas consequências da escalada e pediu que os países da costa sul do Golfo Pérsico impeçam o uso de seus territórios para ações militares contra o Irã. Teerã também cobrou medidas do secretário-geral da ONU, António Guterres, e do Conselho de Segurança. Ainda não se sabe a real extensão dos danos provocados pelos ataques de ambos os lados, nem há confirmação independente sobre a autoria do ataque ao navio no Estreito de Ormuz, atribuído ao Irã apenas pela versão norte-americana. Também permanece incerto se a troca de ataques inviabiliza de vez o memorando de junho ou se há margem para uma nova negociação de cessar-fogo.