O governo dos Estados Unidos retomou a política de pressão máxima contra o Irã, com um pacote de sanções econômicas destinado a forçar Teerã a fazer concessões. O ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, respondeu minimizando a ofensiva: disse que ela é a continuação de uma política fracassada e que representará uma nova derrota para Washington. A troca de declarações ocorre com o impasse em torno do Estreito de Ormuz ainda aberto e com as opções militares americanas descritas como limitadas.
O conteúdo do pacote foi antecipado pelo secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, que afirmou que o país prepara medidas econômicas nunca antes vistas. Entre as possibilidades estão novas restrições às transações financeiras iranianas e sanções secundárias contra países que continuam comprando petróleo de Teerã, com destaque para a China. É a mesma matriz adotada por Donald Trump em seu primeiro mandato, quando abandonou, em 2018, o acordo nuclear firmado em 2015.
A cobertura de centro registrou o episódio de forma seca, atribuindo a avaliação de política fracassada ao chanceler iraniano, entre aspas, sem detalhar as medidas nem trazer a réplica americana. Veículos de esquerda foram além da declaração e enquadraram a ofensiva como demonstração dos limites da coerção econômica: sustentam que o Irã convive com sanções americanas desde 1979 e adaptou sua economia ao bloqueio, ampliando o comércio com Rússia e China, montando redes de contrabando e uma frota clandestina de petroleiros, reduzindo a dependência do dólar e recorrendo a bancos estrangeiros e a operações de escambo. Até o momento, veículos de direita não haviam publicado sobre o caso; a leitura habitual desse campo trata a pressão financeira como alternativa responsável ao uso da força e vê na reação de Teerã sinal de que a medida incomoda.
Os números disponíveis são os mesmos nos dois lados que cobriram o assunto. Antes da guerra, o Irã exportava cerca de 1,8 milhão de barris por dia. Com o conflito e o bloqueio americano, o volume caiu, mas a alta dos preços internacionais do petróleo compensou parte da perda. Durante a vigência do memorando de entendimento firmado com Washington em junho, quando o bloqueio foi temporariamente suspenso, Teerã escoou petróleo armazenado e exportou cerca de 80 milhões de barris antes da retomada das sanções. O país também passou a estocar petróleo em terra e em antigos navios-tanque, a usar estradas e ferrovias para o transporte e a reduzir a produção de alguns poços.
A divergência de fundo está no efeito esperado. A análise de esquerda argumenta que a deterioração econômica dificilmente muda a posição política de Teerã, e lembra que, em 2015, foi a perspectiva de alívio das sanções e de desbloqueio de ativos que criou condições para o líder supremo Ali Khamenei autorizar negociações sobre o programa nuclear. Agora, segundo esse enquadramento, a confiança iraniana em Trump é mínima e há poucas contrapartidas na mesa, o que reduz o incentivo para que o Irã abra mão do controle do Estreito de Ormuz. Ao manter esse controle, Teerã aposta que o custo econômico da interrupção do fluxo de petróleo pressionará os próprios aliados de Washington.
O que ainda não se sabe é o essencial. Nenhuma das coberturas descreve quais medidas foram de fato assinadas, quando entram em vigor e a que países as sanções secundárias vão se aplicar. Também não há resposta pública do governo americano à declaração de Araghchi, nem indicação de canal de negociação aberto entre os dois governos. Permanece indefinido o estado atual do programa nuclear iraniano e o efeito que a nova rodada de sanções terá sobre os preços internacionais do petróleo.