O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), escolhido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro para disputar a Presidência da República em 2026, vive um momento delicado na pré-campanha. No centro do noticiário estão dois eixos que se cruzam: a tentativa de conquistar o eleitorado feminino e a crise aberta com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que rompeu publicamente com a candidatura do enteado.
A cobertura de veículos de direita relatou que, em 2026, metade dos quatro projetos de lei apresentados pelo senador trata de temas voltados às mulheres. Um propõe a criação da Polícia Nacional de Unidades de Pronto Atendimento à Mulher no âmbito do Sistema Único de Saúde. Outro autoriza policiais a conceder, de forma imediata, medidas protetivas de urgência a vítimas de violência doméstica. O dado ganha relevo quando comparado ao ano anterior: em 2025, antes de ser lançado candidato, Flávio apresentou 15 projetos, nenhum deles voltado especificamente ao público feminino.
A cobertura de centro, ao registrar a fala do ex-deputado Julian Lemos, trouxe a leitura mais crítica dentro do próprio campo conservador. Em entrevista, o ex-parlamentar afirmou que Flávio não teria condições de derrotar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e que não sustentaria uma campanha longa. Segundo Lemos, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro reuniria melhores condições para representar a direita na corrida ao Planalto.
Os números ajudam a explicar a inflexão estratégica. Pesquisa BTG/Nexus, realizada depois da divulgação de um vídeo em que Michelle critica o enteado, aponta empate técnico em um eventual segundo turno: Lula com 47% e Flávio com 44%, dentro da margem de erro. No recorte do eleitorado feminino, porém, a distância é bem maior, com Lula em 55% contra 36% do senador. Foi justamente essa desvantagem entre as mulheres que, segundo a cobertura, motivou a mudança de foco parlamentar.
O estopim recente da crise foi o vídeo em que Michelle Bolsonaro acusa Flávio, entre outros pontos, de machismo. Depois disso, ela deixou a presidência do PL Mulher, ameaçou desistir da candidatura ao Senado e rompeu com a candidatura presidencial do enteado, retirando do senador uma das principais lideranças femininas do partido em plena pré-campanha.
As interpretações variam conforme o veículo. A cobertura de direita descreveu o senador como articulador pragmático, um 'bolsonarismo de gestão' voltado a resultados e governabilidade, capaz de atrair o eleitor moderado. Nesse enquadramento, a virada de pauta aparece como resposta legítima às demandas do eleitorado. Já a leitura crítica, ecoada tanto pela fala de Julian Lemos quanto pelas próprias acusações de Michelle, sugere que a agenda pró-mulheres foi adotada tardiamente e por conveniência eleitoral, depois de anos sem prioridade para o tema.
O que ainda não se sabe é como Flávio responderá publicamente às acusações de machismo, se haverá reaproximação com Michelle a tempo de recompor o palanque, e se a nova pauta legislativa terá efeito mensurável sobre a rejeição feminina antes do período eleitoral. Nenhuma das fontes ouvidas trouxe manifestação direta do senador sobre a crise, e não há ainda pesquisas posteriores que permitam avaliar o impacto da estratégia.