A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) tornou-se alvo de uma disputa dentro da própria direita após elogiar, na sexta-feira 3 de julho de 2026, a Política Nacional de Educação Bilíngue de Surdos, criada pelo Ministério da Educação no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em uma publicação nas redes sociais, ela chamou a iniciativa de 'sonho realizado' e afirmou seguir trabalhando por 'um Brasil mais acessível e com oportunidade para todos'. No dia seguinte, diante da repercussão negativa entre bolsonaristas, Michelle reforçou que a defesa da comunidade surda está 'acima de qualquer ideologia ou partido'.
A cobertura de centro relatou o núcleo factual do episódio: o elogio, a reação da base e a resposta da ex-primeira-dama, além do pano de fundo da crise interna no Partido Liberal. Veículos de esquerda enfatizaram o mérito da política pública em si. A reportagem de CartaCapital destacou dados do próprio Ministério da Educação, segundo os quais apenas 12% das redes de ensino contam com materiais pedagógicos adequados em Libras e somente 2.501 professores têm formação continuada em educação bilíngue para surdos. Para esse enquadramento, a medida acolhe uma demanda histórica e amplia direitos educacionais e linguísticos de um grupo historicamente negligenciado, com previsão inclusive de edital de artigos acadêmicos em parceria com a Unesco. O fato de o reconhecimento partir de uma adversária foi lido como sinal da força da pauta de inclusão.
Veículos de direita enfatizaram a defesa de Michelle e o histórico da causa. Segundo a cobertura de A Tarde, aliados afirmam que o elogio foi dirigido à comunidade surda, e não ao governo Lula, e lembram que a pauta bilíngue já era articulada por ela durante a gestão de Jair Bolsonaro, quando foi criada uma diretoria voltada ao tema. Nesse enquadramento, medidas de inclusão devem ser reconhecidas independentemente de quem esteja no poder, e o próprio ex-presidente teria sancionado projetos da oposição quando os avaliou benéficos à população.
Onde as coberturas convergem é no contexto político: o episódio se dá em meio a um atrito público entre Michelle e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência e principal adversário de Lula na corrida de 2026. Na semana anterior, a ex-primeira-dama publicou um vídeo dizendo ter sido humilhada e desrespeitada em uma conversa com o enteado; Flávio negou as acusações e pediu desculpas públicas. O elogio à política do governo petista aprofundou a divisão no PL entre aliados do senador e defensores de Michelle. Deputados, senadores e militantes chegaram a compartilhar uma figurinha da ex-primeira-dama vestindo camisa do PT e a acusaram de 'traição'. Em paralelo, a movimentação partidária rumo a 2026 aparece em outra frente: o líder do governo na Câmara, deputado Silvio Costa Filho, declarou desejar pessoalmente que o Republicanos apoie Lula, embora o partido ainda não tenha fechado posição.
O que ainda não se sabe é se o desgaste entre Michelle e Flávio terá efeito sobre a definição das candidaturas do PL e sobre eventuais alianças, e qual será a decisão final do Republicanos e de outras legendas ainda indefinidas. Também permanece em aberto como a política de educação bilíngue de surdos será implementada na prática diante da defasagem apontada pelo MEC.