A candidata conservadora Keiko Fujimori, do partido Fuerza Popular, alcançou uma vantagem considerada irreversível no segundo turno da eleição presidencial do Peru e deve ser confirmada como nova presidente do país. Com 99,86% das urnas apuradas, ela somava 50,12% dos votos contra 49,88% do rival de esquerda, Roberto Sánchez, do Juntos por el Perú, uma diferença de pouco mais de 43 mil votos. Restavam cerca de 40 mil votos a contabilizar, número insuficiente para reverter o placar. A apuração do segundo turno, realizado em 7 de junho, foi uma das mais disputadas da história recente da América Latina.
A cobertura de centro relatou que as autoridades eleitorais ainda precisam concluir a contagem de 131 atas pendentes antes da proclamação oficial, prevista para meados de julho. A posse está marcada para 28 de julho, para um mandato de cinco anos. O Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE) e o Júri Nacional de Eleições (JNE) conduzem o processo, e missões de observação da Organização dos Estados Americanos e da União Europeia afirmaram que a votação transcorreu de forma tranquila e ordenada. Os veículos de centro também recordaram o contexto de instabilidade peruana: desde 2016, o país teve oito presidentes, vários destituídos pelo Congresso ou levados à renúncia.
O ponto que divide a cobertura é a contestação do resultado. Sánchez não reconhece a eventual vitória de Fujimori, alega irregularidades na votação dos peruanos no exterior e convocou novos protestos em Lima. Veículos de esquerda enfatizaram que Sánchez venceu a votação dentro do Peru e nas regiões rurais andinas, mais pobres, e que a virada só ocorreu quando os votos do exterior, cerca de 300 mil, passaram a ser contabilizados, favorecendo amplamente Fujimori. Segundo o próprio cálculo do candidato, sem esses votos ele manteria vantagem de cerca de 25 mil sufrágios. Seu partido sustenta que uma mudança no método de contagem dos votos no exterior, decidida dias antes da eleição, reduziu os padrões de segurança jurídica do pleito. A cobertura de esquerda também relembrou que Fujimori foi acusada de lavagem de dinheiro no caso da construtora Odebrecht, chegou a passar mais de um ano presa, e que seu pai, Alberto Fujimori, foi condenado por crimes contra a humanidade.
Veículos de direita enfatizaram a legitimidade do resultado. Destacaram que Fujimori venceu na costa e nos centros urbanos com uma agenda centrada no combate ao crime organizado, prioridade apontada por quase 70% dos peruanos, e que os órgãos eleitorais negaram qualquer quebra da cadeia de custódia das atas. Segundo o ONPE, a mudança no método de contagem foi de natureza operacional, feita a pedido do Ministério das Relações Exteriores peruano, e não alterou a lei eleitoral. O JNE julgou improcedente o pedido de anulação dos votos no exterior por ter sido apresentado fora do prazo e sem o pagamento das taxas devidas. A campanha de Fujimori classificou a recusa de Sánchez como antidemocrática, lembrando que o partido adversário não apresentou provas de fraude, e o candidato a vice da Fuerza Popular advertiu que não reconhecer o processo poderia gerar ações à margem da lei. A cobertura também observou que essa é a quarta tentativa de Fujimori à Presidência e marca o retorno do fujimorismo ao poder após mais de duas décadas. Há um precedente que se inverteu: em 2021, foi o partido de Fujimori que perdeu por margem semelhante e tentou anular seções eleitorais rurais favoráveis a Pedro Castillo.
O que ainda não se sabe é a data exata da proclamação oficial e se os recursos de Sánchez a instâncias nacionais e internacionais terão algum efeito sobre o resultado. Também permanece incerto o alcance dos protestos convocados e como o país, marcado por sucessivas crises institucionais, fará a transição até a posse de 28 de julho.