O senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro transformaram a eliminação da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2026 em munição política. Após a derrota por 2 a 1 para a Noruega nas oitavas de final, os irmãos, filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro, usaram as redes sociais para associar o resultado esportivo aos governos do Partido dos Trabalhadores. 'Desde que o PT chegou ao poder, em 2002, o Brasil nunca mais ganhou nada, nem no futebol nem para os brasileiros', escreveu Flávio. Eduardo, por sua vez, apontou uma suposta 'zica do 13', em referência ao número do partido, ao lembrar que Bruno Guimarães desperdiçou um pênalti aos treze minutos.
A cobertura de centro tratou de contrapor a alegação com fatos verificáveis. Veículos como o Poder360 e a Itatiaia relataram que o raciocínio ignora a cronologia: o pentacampeonato foi conquistado em junho de 2002, quando Fernando Henrique Cardoso ainda ocupava a Presidência, e Luiz Inácio Lula da Silva só foi eleito em outubro daquele ano, tomando posse em janeiro de 2003. Além disso, entre 2016 e 2023 o país foi governado por Michel Temer e por Jair Bolsonaro, período em que se disputaram três Copas do Mundo sem que o Brasil levantasse o troféu.
Veículos de esquerda enfatizaram o caráter de desinformação da estratégia. A cobertura destacou expressões como 'desconsidera um fato histórico elementar' para sublinhar o equívoco dos irmãos e leu o episódio como instrumentalização eleitoral do futebol. Nessa mesma linha, o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) publicou um vídeo chamando Flávio e Eduardo de 'traidores da pátria'. Segundo ele, a família Bolsonaro teria 'construído o tarifaço contra o nosso país' e agido para tentar livrar Jair Bolsonaro da Justiça. 'Eles pagarão caro por isso. A resposta do povo brasileiro será nas urnas em outubro', afirmou o parlamentar.
O pano de fundo é a audiência pública em Washington sobre as tarifas anunciadas pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros. Flávio Bolsonaro viajou aos Estados Unidos, onde mora o irmão Eduardo, para participar do encontro que reúne representantes dos setores produtivos dos dois países e autoridades do governo de Donald Trump. No evento, o senador pretende pedir a suspensão das taxas e defender uma resolução negociada. Uma leitura de direita, embora nenhum veículo desse campo tenha coberto diretamente este cluster, tenderia a apresentar a viagem como defesa dos interesses de exportadores e a acusação de Lindbergh como ataque político para desviar da responsabilidade do próprio governo Lula na crise comercial.
A disputa também mobiliza o esporte como símbolo. Desde o início da competição, Flávio usou a Seleção como peça de campanha, com destaque para o apoio do atacante Neymar ao núcleo bolsonarista, reforçado após críticas de Lula ao jogador. Ainda não se sabe qual será a decisão final de Trump sobre as tarifas, prevista para até 15 de julho de 2026, nem que efeito a troca de acusações terá sobre a corrida presidencial. Flávio e Eduardo Bolsonaro não apresentaram réplica às correções factuais sobre 2002 nem à acusação de Lindbergh no material deste conjunto de reportagens.