A Polícia Federal apreendeu mensagens que colocam a empresária e lobista Roberta Luchsinger e Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no centro de uma tentativa de vender produtos à base de cannabis medicinal ao governo federal. Segundo relatório dos investigadores, uma minuta elaborada pela lobista previa remuneração equivalente a 20% do faturamento que a empresa obtivesse com a comercialização desses produtos a órgãos públicos, valor que seria repartido entre os participantes da negociação.
Nas mesmas conversas, de 2024, Roberta Luchsinger afirma ao empresário Gustavo Gaspar que foi chamada pelo presidente e que ele lhe ofereceu um cargo à escolha dela no governo, oferta que ela diz ter recusado. Em outro trecho, ao se apresentar como representante do filho do presidente, a lobista escreve 'Eu sou o Fábio'. Para os investigadores, esse e outros diálogos indicam que ela aparentemente tinha autorização para falar em nome de Lulinha.
Os dois relatos convergem no mesmo conjunto documental. A cobertura de centro deu destaque ao trecho da oferta de cargo, reproduzindo a citação literal da mensagem e identificando a lobista como amiga do filho do presidente e suspeita de intermediar negócios privados junto ao Executivo. Veículos de direita detalharam o desenho financeiro da operação, o percentual de 20%, a lista de participantes e os caminhos que a proposta percorreu dentro do governo. Nenhum dos dois relatos afirma que houve contrato assinado ou pagamento.
O percurso da proposta é o ponto em que os detalhes se acumulam. A lobista teria buscado interlocução no Ministério da Saúde e encaminhado o projeto a Marco Aurélio Santana, ex-chefe de gabinete da Presidência da República. Além dela e de Lulinha, o arranjo envolveria o empresário Antônio Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, que teria criado uma empresa para atuar no mercado de cannabis medicinal, e o ex-assessor parlamentar Gustavo Gaspar. O Ministério da Saúde declarou que nunca houve possibilidade de contratar canabidiol, e não há registro de que a proposta tenha avançado para outros órgãos federais.
As mensagens também mencionam o advogado Otto Medeiros, descrito pela lobista como 'bem influente'. Em uma das conversas, ela afirma que ele seria sócio do ministro do Supremo Tribunal Federal Kassio Nunes Marques, que atualmente preside o Tribunal Superior Eleitoral. Em nota, o ministro negou qualquer vínculo societário, afirmou que nunca foi sócio do advogado em empreendimento algum, confirmou manter com ele relação de amizade e declarou-se impedido de atuar em processos no Supremo em que Medeiros seja parte. Documentos analisados pela Polícia Federal apontam ainda que a irmã e o filho do ministro atuam em parceria profissional com o advogado em processos judiciais. Otto Medeiros não quis comentar publicamente e, a interlocutores, teria negado a sociedade.
A divergência de enquadramento aparece no peso dado a cada elemento. Veículos de direita organizaram a narrativa em torno da responsabilização de quem cerca o presidente, encadeando o percentual de comissão, a frase de identificação com o filho de Lula, a presença do chamado Careca do INSS e as ligações do advogado com o ministro do Supremo. A cobertura de centro manteve-se no registro da nota factual, sem desenvolver as ramificações e sem contraditório. Já a cobertura de esquerda esteve ausente do conjunto analisado, o que caracteriza um ponto cego: os argumentos que tendem a organizar essa leitura, como a ausência de contrato firmado, a recusa formal do Ministério da Saúde, a presunção de inocência de quem não foi indiciado e o questionamento da divulgação seletiva de uma apuração em curso, não foram sustentados por nenhum veículo desse campo até o momento. Esses pontos aparecem no caso pelas manifestações das partes: os advogados de Roberta Luchsinger questionaram a divulgação das informações, alegaram que a exposição poderia prejudicar as investigações e defenderam que eventuais vazamentos sejam apurados pelo Ministério da Justiça.
O que ainda não se sabe é considerável. Não há informação pública sobre o estágio processual da apuração, se houve indiciamento ou denúncia, nem sobre eventual pedido formal de acesso a agentes públicos além do gabinete da Presidência e do Ministério da Saúde.