A Polícia Federal encontrou nos celulares da empresária Roberta Luchsinger e do lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, uma minuta de contrato para o fornecimento de medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde. O documento chegou por mensagem ao celular de Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, então chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo o plano de negócios apreendido, a operação previa a venda de 1,2 milhão de frascos de 36 tipos de remédios, sem licitação, por até 626 milhões de reais. Os dois investigados são alvo de apuração por suspeita de tráfico de influência.
A cobertura de centro detalhou o desenho do negócio. Um depoimento prestado à Polícia Federal por uma testemunha que trabalhava para a World Cannabis, empresa do lobista, descreve o valor pretendido. Nos aparelhos apreendidos havia versões de um termo de referência, o manual técnico que baliza contratações públicas, e uma das suspeitas dos investigadores é que o texto seria entregue pronto para publicação pela pasta. Em áudio recuperado pela investigação, a empresária discute com o lobista a possibilidade de enquadrar a compra como dispensa de licitação. As palavras registradas são diretas: ela menciona a nova lei de licitações e sugere construir um documento robusto pedindo a dispensa, apoiado em cenário de emergência. A mesma cobertura registra que Antunes viajou aos Estados Unidos e à Colômbia atrás de fornecedores e que, em decisão de dezembro autorizando buscas contra Luchsinger, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, apontou o Ministério da Saúde como possível nova área de atuação da organização criminosa investigada no caso do INSS.
Veículos de direita deram outro peso ao mesmo material. Puseram no centro a relação financeira entre os investigados, com a informação de que a empresária teria recebido 1,5 milhão de reais do lobista para abrir portas no governo federal, e mantiveram em evidência a suposta atuação de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente, que já responde a outros inquéritos no Supremo por atuação junto a órgãos públicos, entre eles a Dataprev. Essa cobertura também abriu espaço maior para a defesa: o advogado Marco Aurélio de Carvalho, que representa o ex-chefe de gabinete, afirmou que não houve ato de ofício e questionou a autenticidade e a cadeia de custódia das mensagens citadas no inquérito.
Os dois enquadramentos convergem no essencial. Nenhum contrato foi assinado, e o ex-chefe de gabinete confirmou a interlocutores ter recebido o arquivo, reconheceu que o recebimento foi inadequado e negou ter encaminhado ou negociado a proposta. O Ministério da Saúde afirmou em nota que nunca houve possibilidade de compra, porque o canabidiol sequer está incorporado ao SUS, e que a pasta não compra, não fornece e não mantém contrato do produto. Especialistas ouvidos pela apuração explicam que aquisições desse tipo só ocorrem de forma pontual, por importação direta, quando há decisão judicial obrigando o Estado a entregar o medicamento. Era exatamente essa brecha que o plano pretendia explorar, com o argumento de que uma compra unificada em lote reduziria custos e atenderia pacientes que obtêm o remédio na Justiça. Em 2024, o ministério gastou 2,7 bilhões de reais com medicamentos comprados por determinação judicial.
Veículos de esquerda não haviam publicado sobre o episódio até o momento, o que deixa um ponto cego na comparação: falta a leitura que costuma enfatizar a regulação do lobby, a fragilidade da incorporação de medicamentos ao SUS e as garantias do devido processo a investigados.
O que ainda não se sabe é o principal. Não há elemento público que demonstre ato de ofício de qualquer agente do governo em favor do negócio, nem trecho divulgado que ligue o filho do presidente especificamente à minuta de canabidiol. As defesas dos três citados não se manifestaram publicamente sobre o conteúdo dos documentos, e a contestação sobre a integridade das mensagens permanece em aberto. Também não se conhece o desfecho do inquérito em curso no Supremo Tribunal Federal, nem se houve reuniões efetivas entre o grupo e técnicos do Ministério da Saúde, mencionadas apenas em mensagens do lobista.