Roberta Luchsinger ofereceu canabidiol por R$ 626 milhões sem licitação ao governo
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A leitura à direita trata o episódio como mais um sinal de que o entorno pessoal do presidente virou porta de entrada para negócios com o Estado. Uma empresária que, segundo a Polícia Federal, recebeu R$ 1,5 milhão do lobista preso na fraude do INSS para abrir portas no governo, conseguiu fazer chegar ao gabinete da Presidência da República uma minuta pronta de contrato de R$ 626 milhões, com dispensa de licitação e margem pretendida de 20%. O ponto central desse enquadramento é o método: entregar ao Ministério da Saúde o texto técnico já redigido, usando a emergência como pretexto para pular o certame, e contar com o trânsito de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e do chefe de gabinete do presidente. A ênfase recai sobre a captura da máquina pública por intermediários e sobre a fragilidade dos controles internos.
A Polícia Federal encontrou nos celulares da empresária Roberta Luchsinger e do lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, uma minuta de contrato e um termo de referência que previam o fornecimento de 1,2 milhão de frascos de 36 tipos de medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde, negócio estimado em R$ 626 milhões e desenhado para ocorrer sem licitação.
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Veículos com viés à direita
Nesta matéria: falácia identificada.
Nesta matéria: perspectiva omitida.
Nenhum recurso público foi gasto: o Ministério da Saúde afirma que não há contrato nem possibilidade de compra, porque o canabidiol não está incorporado ao Sistema Único de Saúde. Pacientes que hoje obtêm o medicamento por decisão judicial seguem dependendo de importação direta e de compras pontuais. O caso mira a brecha da dispensa de licitação prevista na nova lei de licitações, mecanismo que se aplica a compras de saúde em todo o país, e alimenta um inquérito no Supremo Tribunal Federal que envolve o filho do presidente.
A cobertura de centro trata o episódio como tentativa frustrada e dá espaço à negativa integral do Ministério da Saúde. Veículos de direita enquadram o caso como captura da máquina pública pelo entorno do presidente, destacam a margem de 20% pretendida e a ligação com Fábio Luís Lula da Silva, e um deles omite a negativa do ministério. Não há cobertura de esquerda publicada até o momento, o que deixa sem voz o enquadramento de que nenhum recurso público foi gasto e de que o problema de fundo é a judicialização da saúde.
Todas as coberturas confirmam que a minuta de contrato de canabidiol saiu do celular de Roberta Luchsinger e chegou a Marco Aurélio Santana Ribeiro, então chefe de gabinete da Presidência, que o negócio previa dispensa de licitação, e que nenhum contrato foi assinado com o Ministério da Saúde. Também há convergência sobre a negativa do ex-chefe de gabinete de ter dado andamento à proposta.
Não há data pública para o envio da minuta ao gabinete da Presidência nem prova de que o termo de referência tenha circulado dentro do Ministério da Saúde. Não se sabe quem eram os técnicos da pasta com quem o lobista dizia ter reuniões. As defesas de Roberta Luchsinger, de Antônio Carlos Camilo Antunes e de Fábio Luís Lula da Silva não apresentaram versão sobre os documentos, e o inquérito no Supremo Tribunal Federal não tem prazo de conclusão divulgado.
Uma minuta de contrato apreendida pela Polícia Federal previa o fornecimento de 1,2 milhão de frascos de medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde, por até R$ 626 milhões e sem licitação. O documento chegou ao então chefe de gabinete do presidente Lula, mas o negócio nunca foi fechado. Compare como o centro e a direita cobriram o caso.
A Polícia Federal encontrou, nos celulares da empresária Roberta Luchsinger e do lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, uma minuta de contrato e versões de um termo de referência que previam o fornecimento de 1,2 milhão de frascos de 36 tipos de medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde. O negócio poderia render até R$ 626 milhões e foi desenhado para ocorrer sem licitação. A minuta foi enviada por Luchsinger a Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, então chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O contrato nunca foi assinado.
Os relatos convergem nos pontos centrais. Os documentos apreendidos indicam que o grupo pretendia usar a chamada nova lei das licitações e um cenário de emergência para justificar a dispensa do certame, entregando ao ministério um texto técnico já redigido. O argumento montado nos papéis era o de formar um estoque centralizado para atender pacientes que obtêm na Justiça o direito ao tratamento com cannabis medicinal, hipótese em que o poder público é obrigado a comprar produtos que não integram o Sistema Único de Saúde. O volume desse gasto é conhecido: em 2024, o Ministério da Saúde desembolsou R$ 2,7 bilhões com medicamentos adquiridos por determinação judicial. A investigação aponta ainda que Antunes viajou aos Estados Unidos e à Colômbia atrás de fornecedores, e que Luchsinger teria recebido R$ 1,5 milhão do lobista para facilitar o acesso a integrantes do governo federal. Em dezembro, ao autorizar buscas em endereços da empresária, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, escreveu que a nova possível área de atuação da organização criminosa investigada se daria no âmbito do Ministério da Saúde. O ministério nega qualquer negociação e afirma que nunca houve possibilidade de compra, porque o canabidiol sequer está incorporado ao Sistema Único de Saúde. Marco Aurélio Santana Ribeiro confirmou a interlocutores que recebeu o arquivo, classificou o recebimento como inadequado e disse não ter encaminhado nem negociado a proposta; seu advogado questiona a autenticidade e a cadeia de custódia das mensagens.
A cobertura de centro sustentou o caso nos documentos e no contraditório institucional: descreveu o plano de negócios em detalhe, reproduziu na íntegra a nota do Ministério da Saúde, ouviu especialistas sobre como o poder público compra medicamentos de cannabis e registrou que as defesas dos investigados não se manifestaram. Veículos de direita deslocaram o eixo para o entorno do presidente. Um deles centrou o texto na ligação da empresária com o gabinete presidencial e com Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e deixou de fora tanto o valor do negócio quanto a negativa do ministério. Outro foi além no tom, chamou o produto de remédio à base de maconha, abriu o título com a palavra bomba e acrescentou dois elementos ausentes da cobertura de centro: a margem de 20% que a empresária pretendia obter e a menção, em diálogos apreendidos, ao advogado Otto Medeiros como suposto sócio do ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal, que preside o Tribunal Superior Eleitoral e negou qualquer sociedade, confirmando apenas amizade. Até o fechamento desta análise, veículos de esquerda não haviam publicado sobre o caso, e a leitura que esse campo costuma dar ao episódio, de que nenhum dinheiro público foi gasto e de que o problema de fundo é a judicialização da saúde somada à ausência de regulação do lobby, não apareceu na cobertura disponível.
O que ainda não se sabe é considerável. Não há data pública para o envio da minuta ao gabinete da Presidência, nem registro de que o documento tenha circulado oficialmente dentro do Ministério da Saúde. Não se sabe se algum servidor da pasta chegou a analisar o termo de referência, nem quem eram os técnicos com quem o lobista dizia ter reuniões. As defesas de Roberta Luchsinger, de Antônio Carlos Camilo Antunes e de Fábio Luís Lula da Silva não detalharam suas versões sobre o conteúdo dos documentos, e o inquérito que corre no Supremo Tribunal Federal ainda não indicou prazo de conclusão nem se haverá denúncia.
Documentos obtidos pela Polícia Federal apontam que a lobista Roberta Luchsinger teria apresentado ao governo federal uma proposta para fornecer

Marcola confirmou a pessoas próximas que recebeu o documento, mas esclareceu que nunca encaminhou ou negociou qualquer proposta

A Polícia Federal identificou uma conversa na qual a empresária Roberta Luchsinger teria enviado ao então chefe de gabinete do
