O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, em atos de campanha realizados no fim de semana, que o Brasil não deve se alinhar a um único parceiro internacional na disputa por minerais críticos e por tecnologia de inteligência artificial. No sábado, 22 de agosto de 2026, durante comício em Bangu, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, ao lado do candidato ao governo fluminense Eduardo Paes, o presidente disse não ter preferência entre China, Estados Unidos, Rússia, França e Inglaterra e completou que tem preferência por todos eles, acrescentando que é brasileiro e quer as coisas do próprio país. Um dia antes, em Belo Horizonte, no lançamento da campanha de Patrus Ananias ao governo de Minas Gerais, havia dito que o Brasil não vai ficar dependendo da China nem dos Estados Unidos para fazer inteligência artificial, e pediu que jovens estudem engenharia, matemática e áreas do mundo digital.
A cobertura de centro relatou o contexto em que a frase foi dita: um trecho do discurso dedicado a minerais críticos e terras raras, insumos usados na fabricação de baterias de carros elétricos, chips e outros produtos de alta tecnologia. Segundo o relato, o presidente afirmou que o Brasil está entre os países com as maiores reservas desses minerais, mas ainda depende de parcerias externas para explorar e produzir em escala industrial, e atribuiu o embate comercial entre Estados Unidos e China à liderança chinesa na exploração, na fabricação e no processamento de terras raras. O objetivo declarado é formar mão de obra qualificada para que o país explore sozinho essa riqueza no futuro, sem depender de um parceiro único.
Os dois registros convergem em três pontos. O primeiro é que a declaração foi feita em palanque eleitoral, com candidatos a governos estaduais, ao Senado e a primeira-dama Janja Lula da Silva no palco. O segundo é que o presidente condicionou a autonomia brasileira à formação de profissionais em ciência e tecnologia, e não a um anúncio de programa ou de recursos. O terceiro é que a fala sobre inteligência artificial e a fala sobre terras raras compartilham a mesma tese, a de reduzir dependência externa em setores considerados estratégicos.
As divergências aparecem no recorte. Veículos de direita destacaram o trecho sobre educação e inteligência artificial e situaram a declaração dentro de um ato partidário, com menção ao lançamento de candidatura, enquadramento que aproxima a fala de promessa de campanha. A cobertura de centro deu mais espaço à substância econômica, explicando o que são terras raras, por que Estados Unidos e China disputam o setor e onde o Brasil se encaixa nessa cadeia, além de registrar a articulação eleitoral no Rio de Janeiro. A leitura de esquerda, que não apareceu entre os veículos que cobriram o episódio, tende a tratar o tema como afirmação de soberania e defesa de política externa não alinhada, com educação pública e política industrial como instrumentos de um projeto nacional de desenvolvimento.
O que ainda não se sabe é o essencial para transformar a declaração em política. Não há prazo, meta, valor de investimento ou marco regulatório anunciado para a exploração e o processamento de terras raras em território brasileiro, nem informação sobre quais acordos ou contratos com países e empresas estrangeiras estariam em negociação. Também não foram apresentados dados oficiais sobre o tamanho das reservas nacionais, nem detalhamento de como a formação de engenheiros e técnicos seria financiada e em que horizonte de tempo produziria efeito. Sem esses elementos, a distância entre a frase dita no comício e uma estratégia de Estado para minerais críticos e inteligência artificial permanece aberta.