O presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu criar o Ministério da Segurança Pública caso seja reeleito, durante o primeiro ato de campanha dele no Rio de Janeiro, no sábado, 22 de agosto, no Estádio Moça Bonita, em Bangu, na Zona Oeste da capital fluminense. Ao lado do candidato ao governo do estado, Eduardo Paes, do PSD, e dos candidatos ao Senado Benedita da Silva, do PT, e Pedro Paulo, do PSD, Lula afirmou que pretende retirar o domínio de facções e milícias sobre territórios da cidade e devolvê-los aos moradores.
O argumento central do discurso foi institucional. Segundo o presidente, a Constituição de 1988 transferiu a segurança pública para os estados como reação aos 23 anos de comando militar sobre a área, e o resultado é uma União com papel fraco. A criação do ministério ficaria condicionada à aprovação, pelo Senado, da Proposta de Emenda à Constituição da Segurança Pública, enviada pelo governo e já aprovada na Câmara dos Deputados. Lula também elogiou o governador interino do Rio de Janeiro, o desembargador Ricardo Couto, e afirmou que a repressão não passará por operações espetaculares: prender, e não contabilizar mortos, seria o método.
Os três blocos de cobertura convergem no núcleo factual, que é a promessa do ministério, a vinculação dela à PEC e o compromisso de retomar territórios. Divergem no que colocam em torno disso. Veículos de esquerda deram espaço ao restante do discurso e trataram a segurança como parte de um programa mais amplo, destacando a promessa de escola em tempo integral em toda a rede pública, o investimento em institutos federais e universidades, a exploração soberana de terras raras e minerais críticos, a defesa de uma indústria nacional de defesa e a frase sobre igualdade de oportunidade entre a filha da empregada e o filho da patroa. A cobertura de centro reduziu o ato à agenda de segurança e ao anúncio do ministério, tratando o evento como movimento de campanha do candidato à reeleição, com menção a mais investimento militar e sem desdobrar as demais promessas.
Veículos de direita enfatizaram a natureza partidária do palanque e o cálculo eleitoral por trás dele. Descreveram o estádio tomado pela militância do PT, registraram o pedido do presidente para que divergências internas fiquem fora da eleição e a defesa explícita de Pedro Paulo, resistido por parte dos petistas, além da frase em que Lula classificou a aliança com Eduardo Paes como uma necessidade para o povo do Rio de Janeiro. Esse mesmo bloco deu relevo ao trecho em que Paes associou adversários ao crime organizado, citando a prisão de Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, e afirmando que Bacellar seria o candidato do campo de Flávio Bolsonaro ao governo do estado se a Polícia Federal não tivesse investigado a relação entre política e crime no estado.
Ainda não se sabe como o ministério prometido funcionaria. Não há detalhamento público de estrutura, orçamento, efetivo, prazo de instalação ou de que forma ele dividiria atribuições com os governos estaduais, que seguem constitucionalmente responsáveis pela segurança. Também não há calendário definido para a votação da PEC no Senado nem indicação de quantos votos o texto reúne. Nenhuma das coberturas trouxe resposta do PL ou de Flávio Bolsonaro às acusações feitas do palco, e o número de 30 mil presentes no ato foi divulgado pela própria campanha, sem verificação independente.