O senador Flávio Bolsonaro, candidato do Partido Liberal à Presidência da República, afirmou no sábado, 22 de agosto, em ato de campanha no Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, que “o bandido vai ser tirado de circulação, em pé ou deitado, porque quem tem que andar nas ruas é a população”. Antecipando a reação, completou: “Ah, o Flávio é radical. Não gostou? Vota no defensor de bandido”. O comício também serviu para lançar o apoio a Douglas Ruas, candidato do partido ao governo fluminense.
A segurança pública ocupou a maior parte do discurso. O candidato prometeu pena inicial de oito anos de cadeia para roubo de celular, castração química para condenados por estupro de crianças e mulheres, prisão imediata de agressores em casos de violência doméstica e a classificação do Primeiro Comando da Capital, do Comando Vermelho e das milícias como organizações terroristas. Citou o uso de drones com bomba por traficantes e disse que criminosos teriam “até dezembro deste ano para sair do Brasil”. Na área econômica, mencionou um programa chamado “Minha Primeira Empresa”, sem explicar como funcionaria. Direcionou críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao candidato ao governo do estado Eduardo Paes.
As coberturas convergem em um ponto central: a fala rompe com a imagem de “Bolsonaro moderado” que o próprio candidato havia construído no início da pré-campanha, quando fazia acenos de abertura e brincava com a própria distância em relação ao pai. Também convergem na transcrição das frases, praticamente idêntica nos dois relatos.
Veículos de esquerda destacaram que a frase equivale a defender execução sumária, ou seja, aplicação de pena capital sem o devido processo legal, hipótese que a Constituição brasileira não prevê, e situaram o discurso dois dias depois da morte do ciclista Cláudio Rafael Landeiro Moreira, de 37 anos, espancado em Copacabana após ser apontado por “comportamento suspeito”. Segundo essa cobertura, Cláudio tinha transtornos psicológicos e dificuldade para se comunicar, e não conseguiu explicar que a bicicleta pertencia à irmã. Câmeras registraram cerca de 30 pauladas em aproximadamente sete minutos de agressão; a morte foi por traumatismo craniano e hemorragia interna, e o delegado responsável classificou o caso como homicídio triplamente qualificado. Um segurança de 56 anos foi preso temporariamente na quinta-feira, 20, apontado como participante acessório, e outros dois suspeitos seguem procurados.
A cobertura de centro relatou o discurso na ordem em que foi proferido e o inscreveu no cálculo eleitoral: a radicalização do tom aparece associada ao isolamento do candidato, às dificuldades de atrair partidos do centrão e a uma sequência de crises no palanque fluminense, com a desistência do ex-governador Cláudio Castro da disputa ao Senado depois de operações da Polícia Federal, busca e apreensão contra Márcio Canella e o impedimento de Douglas Ruas de assumir interinamente o Palácio Guanabara. Essa cobertura fechou com o primeiro Datafolha após o início oficial da campanha, divulgado na sexta-feira, 21: Luiz Inácio Lula da Silva com 39% e Flávio Bolsonaro com 33% no primeiro turno, e 47% a 43% em um eventual segundo turno.
A divergência não está nos fatos, e sim no que cada lado considera o fato principal. Para a cobertura de esquerda, o núcleo é jurídico e moral: uma promessa de morte sem julgamento, feita na cidade onde um homem acabara de ser linchado por suspeita infundada. Para a cobertura de centro, o núcleo é político: um candidato que abandona o registro moderado para reancorar a base em ano eleitoral apertado. Até o fechamento desta reportagem, veículos de direita não aparecem no conjunto de matérias reunidas sobre o ato, de modo que a leitura que enfatiza ordem pública e responsabilização penal não está representada por cobertura própria neste caso.
O que ainda não se sabe é decisivo. Nenhuma das matérias registra esclarecimento da campanha sobre o alcance literal da frase, se ela descreve resultado de confronto armado ou defesa de execução extrajudicial. Também não há detalhamento sobre como o programa econômico anunciado funcionaria, nem sobre o caminho legal para enquadrar facções e milícias como terrorismo. A investigação do linchamento em Copacabana segue com dois suspeitos foragidos.