O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou, em entrevista a um podcast na quarta-feira, 5 de agosto de 2026, que o Brasil não receberá nenhum embaixador dos Estados Unidos até o fim das eleições de outubro. A decisão é resposta direta à revogação, na véspera, do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, pelo governo de Donald Trump. Lula classificou a medida americana como “irresponsável” e “impensada” para dois países que mantêm 203 anos de relação diplomática.
O estopim formal da crise é o agrément de Daniel Perez, parlamentar republicano da Flórida indicado por Trump para chefiar a embaixada americana em Brasília. Washington alega demora brasileira na aprovação do nome. O Palácio do Planalto rejeita a justificativa: em nota, afirmou que as alegações americanas “são falsas” e que a revogação do visto integra uma escalada deliberada de medidas hostis ao Brasil, motivadas por razões ideológicas e com interesse declarado de interferir na eleição presidencial. O governo brasileiro lembra que a indicação de Perez foi anunciada publicamente em 1º de junho, mas que o pedido formal de anuência só chegou duas semanas depois, o que contraria o artigo 4 da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas, segundo o qual o nome do indicado só deve ser tornado público após a concordância do país receptor.
Os relatos convergem em alguns pontos. O visto de Viotti foi revogado, ela permanece no cargo e sua situação virou um limbo: não foi declarada persona non grata, mas perdeu o direito de múltiplas entradas nos Estados Unidos, de modo que sair do país significa não poder voltar. Também há acordo de que o Departamento de Estado americano condicionou a devolução do visto à aprovação formal de Perez, e de que o Itamaraty já havia negado, no fim de julho, vistos a dois funcionários do governo Trump que pretendiam vir ao Brasil questionar a lisura do processo eleitoral.
A divergência está na leitura política do episódio. Veículos de esquerda destacaram a firmeza da resposta brasileira como defesa da soberania e do processo eleitoral, enfatizando a quebra de protocolo por Washington e a declaração de Lula de que o país enfrentará qualquer pessoa de fora que tente intervir no sistema eleitoral. A cobertura de centro situou o episódio dentro de um dia especialmente ruim para o Planalto, que somou apuração da Polícia Federal sobre negócios envolvendo o filho do presidente e a citação de um ex-auxiliar recebendo dinheiro de uma empresária investigada, e sugeriu que o confronto externo pode acabar favorecendo o presidente na disputa eleitoral. Veículos de direita enfatizaram que há chantagem dos dois lados, trataram o travamento do agrément como mesquinharia de motivação eleitoral e cobraram do governo prioridade para a economia, com atenção a juros, contas públicas e aos efeitos das tarifas americanas sobre os exportadores brasileiros.
Há ainda pontos em aberto. Não existe data para a devolução do visto de Viotti nem sinal de recuo de Washington, e o entorno do presidente considera abaixo de zero a chance de acelerar o agrément antes de outubro. Nenhuma das versões detalha se haverá novas retaliações econômicas ou consulares de parte a parte, qual será o efeito prático da ausência de embaixador americano em Brasília sobre negociações comerciais em curso, nem como fica o atendimento consular a brasileiros durante o período de impasse.