O presidente Luiz Inácio Lula da Silva levantou o dedo do meio durante um discurso em cerimônia oficial no Palácio do Planalto, na sexta-feira (3). O gesto ocorreu enquanto o presidente rebatia a ideia de que pessoas de baixa renda não valorizam produtos e serviços de qualidade. "Precisamos acabar com essa história de que o pobre não gosta de coisa boa. Aqui para eles", disse Lula, mostrando o dedo. "Nós gostamos de coisa boa. Nós queremos é tudo de primeira."
O episódio aconteceu num evento em que o governo federal anunciou entregas nas áreas de educação, saúde e habitação. A cobertura de centro relatou os números com detalhe: cerca de R$ 206,6 milhões destinados a dez novos campi da Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica, e R$ 464,8 milhões para ambulâncias, unidades odontológicas móveis e equipamentos do Sistema Único de Saúde. No mesmo discurso, Lula elogiou o SUS e o programa Brasil Sorridente e criticou quem tem plano de saúde privado, lembrando que o custo do plano é descontado no Imposto de Renda.
A cerimônia marcou uma das últimas agendas do Executivo com anúncios antes do início das restrições eleitorais. A partir do sábado (4), faltando três meses para o primeiro turno, passaram a valer limitações à publicidade institucional e à participação de agentes públicos em inaugurações de obras. Na quinta-feira (2), Lula já havia classificado essas regras como uma "papagaiada desgraçada".
A divergência entre as coberturas aparece no enquadramento. Veículos de esquerda destacaram o conteúdo social da fala: a defesa do direito dos mais pobres a bens e serviços de qualidade, a crítica ao preconceito de classe embutido na frase que Lula rebatia, e a denúncia de que planos de saúde privados são subsidiados via renúncia fiscal. Nessa leitura, o gesto foi uma resposta enfática a uma visão elitista, e a reação da oposição uma tentativa de deslocar o debate do mérito para a forma.
Veículos de direita enfatizaram a quebra de decoro. A oposição reagiu nas redes sociais: o senador Flávio Bolsonaro provocou associando o gesto à pergunta sobre quando a economia vai melhorar; o pré-candidato Romeu Zema afirmou que o gesto atingiu "brasileiros do bem, trabalhadores, cristãos" e ligou o governo a escândalos de corrupção; e o deputado Nikolas Ferreira questionou se aquele seria o "decoro do cargo" que a esquerda cobrava de Jair Bolsonaro. Para esses críticos, o timing dos anúncios, às vésperas das restrições, também sugere uso da máquina pública.
O que ainda não se sabe é se o episódio terá desdobramentos formais, como representações no Tribunal Superior Eleitoral, e qual será o impacto, se houver, na disputa presidencial que se aproxima. Até o momento, não há manifestação oficial do Palácio do Planalto respondendo diretamente às críticas ao gesto.