O primeiro debate televisivo da corrida presidencial de 2026, realizado no domingo, 23 de agosto, terminou marcado menos pelo que foi dito do que por quem não estava no palco. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), os dois primeiros colocados nas pesquisas de intenção de voto, não compareceram. O ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) também foi convidado e desistiu no mesmo domingo. Pelo regulamento do encontro, os púlpitos dos ausentes foram mantidos vazios durante toda a exibição.
As justificativas ficaram registradas. Lula alegou que o formato não oferecia condições equilibradas para responder aos ataques dos adversários. Flávio Bolsonaro havia condicionado sua ida à participação do petista, sob o cálculo de que, sem ele, passaria a ser o alvo preferencial. Zema afirmou que a dupla ausência comprometia a pluralidade do encontro. Pablo Marçal (PRTB), que está inelegível, pediu formalmente sua inclusão e foi barrado pelo Tribunal Superior Eleitoral. Participaram do debate Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante).
O efeito da ausência apareceu na própria contagem do que foi falado. Lula e Flávio Bolsonaro figuraram entre as dez palavras mais mencionadas pelos presidenciáveis, ao lado de “crime” e “ensino”. Quem mais citou a dupla foi Renan Santos, que abriu a linha de ataque na primeira fala e não economizou adjetivos: chamou os ausentes de canalhas, criminosos e cadelas, e disse que ambos competiam para ver quem é o mais corrupto. Ao todo, mencionou Lula 27 vezes e Flávio Bolsonaro 20, associando os nomes ao Mensalão, à apuração sobre Fábio Luís Lula da Silva por suposto tráfico de influência, ao inquérito das rachadinhas no gabinete do senador e ao financiamento do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, a um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Segurança pública foi o segundo eixo do encontro: Ronaldo Caiado repetiu “segurança” doze vezes e “Goiás” nove, propôs uso de inteligência artificial contra o crime organizado, integração das forças policiais, confisco de bens de faccionados e classificação das facções como terroristas. Renan Santos prometeu “banho de sangue” contra facções, superpresídios e decretação de Garantia da Lei e da Ordem, com intervenção federal no Ceará e em outros estados do Nordeste. Augusto Cury puxou o vocabulário para outro lado, com “ensino” dez vezes e “polícia” onze, defendendo ensino técnico, currículos com empreendedorismo e gestão financeira, e valorização da Polícia Federal como treinadora de polícias municipais.
A cobertura de centro relatou o encontro pela contagem dos termos e pelas propostas, encerrando com os números da pesquisa Datafolha divulgada em 21 de agosto: Lula com 39% e Flávio Bolsonaro com 33% no primeiro turno, 47% a 43% em eventual segundo turno, margem de erro de dois pontos, com Caiado em 5%, Renan em 4%, Zema em 3% e Cury em 2%. Veículos de direita trataram o evento sobretudo como serviço eleitoral, detalhando regras, horários e o calendário seguinte, e fixaram no registro a recusa do presidente candidato e a manutenção do púlpito vazio, leitura que converte a ausência em fuga do escrutínio público. À esquerda não houve cobertura própria no conjunto analisado; o enquadramento previsível daquele lado toma a mesma cena pelo ângulo oposto, o de um palco sem mediação em que acusações penais circularam sem contraditório e em que a agenda foi puxada para endurecimento penal e intervenção federal em estados governados por adversários, deixando de fora renda, trabalho e saúde pública.
O que ainda não se sabe é se Lula e Flávio Bolsonaro comparecerão aos três debates já marcados, em 14 de setembro, 27 de setembro e 1º de outubro. Também não está esclarecido se o Tribunal Superior Eleitoral reverterá a decisão que barrou Pablo Marçal, qual o estágio processual das investigações citadas no palco e qual o efeito das ausências sobre a intenção de voto, já que a pesquisa mais recente é anterior ao debate.