A campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) avançou nesta semana em duas frentes simultâneas: a montagem de agendas voltadas a públicos específicos e a contenção do desgaste provocado pela investigação da Polícia Federal que envolve seu filho, Fábio Luís Lula da Silva. Na quinta-feira, 20 de agosto, o presidente realizou o primeiro ato de campanha no Rio Grande do Norte, em Natal, ao lado da governadora Fátima Bezerra (PT), do candidato do partido ao governo estadual, Cadu Xavier, e dos candidatos ao Senado Samanda Alves (PT) e Rafael Mota (PDT).
No palanque potiguar, Lula afirmou que não será o candidato das promessas e pediu que o eleitor compare seus mandatos aos de outros chefes do Executivo, em especial o do ex-presidente Jair Bolsonaro. Admitiu que deixou de fazer, nas palavras dele, muita coisa à frente do governo, tirou o chapéu para mostrar a cicatriz das sessões de radioterapia no couro cabeludo e citou o programa Mais Especialistas. Pediu ainda votos para deputados aliados com o objetivo declarado de fazer uma limpeza no Congresso Nacional e de aprovar o fim da escala 6x1 e o fim da chamada taxa das blusinhas. Segundo o próprio presidente, a medida provisória que trata da taxação de compras internacionais será discutida em 26 de agosto com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e o do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).
Nos bastidores, a estrutura da campanha trabalha para ampliar o alcance entre segmentos específicos do eleitorado. O núcleo de cultura avalia Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia como sedes de um ato com artistas, nos moldes do encontro realizado em São Paulo em 2022, que reuniu nomes como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico Buarque e Daniela Mercury. Em paralelo, integrantes da campanha estudam um encontro do presidente com um grupo de evangélicos, articulação atribuída a um desejo da primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja, com participação da deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ), candidata ao Senado pelo Rio de Janeiro. No lançamento oficial da campanha, em 16 de agosto, Janja já havia cantado uma versão de Deus Cuida de Mim ao lado do cantor gospel Kleber Lucas.
A cobertura de centro concentrou-se nesses movimentos de agenda e no cálculo eleitoral por trás deles, tratando as articulações como esforço para ampliar o diálogo com públicos historicamente mais resistentes ao presidente e registrando também a montagem dos palanques estaduais. Um exemplo é o Rio de Janeiro: o candidato ao governo Eduardo Paes (PSD) afirmou que não participará da campanha do presidenciável de seu próprio partido, Ronaldo Caiado, porque fechou aliança com Lula, acordo que inclui a presença do presidente em suas agendas no estado. O presidente do PSD e vice na chapa de Caiado, Gilberto Kassab, havia dito esperar o apoio de Paes.
Veículos de esquerda deram peso maior ao caso que envolve o filho do presidente e enquadraram a divulgação fragmentada de mensagens e documentos da investigação como vazamento seletivo com efeito eleitoral. Nessa leitura, a sequência de revelações impede a campanha de estabelecer pauta própria e oferece à oposição material para transformar um inquérito em curso em tema permanente da disputa. Essa cobertura registra que a Procuradoria-Geral da República afirmou que a representação da Polícia Federal não identificou negócio concluído entre o grupo investigado e o poder público, e que tratativas envolvendo canabidiol não resultaram em contratação pelo Ministério da Saúde. A defesa nega irregularidade e questiona a integridade do material divulgado, enquanto os investigadores apuram se houve atuação informal para abrir portas no governo. O advogado Marco Aurélio de Carvalho levou a queixa sobre os vazamentos ao presidente em reunião no Palácio da Alvorada em 19 de agosto.
Veículos de direita não cobriram o caso no conjunto de matérias reunido aqui, de modo que a crítica frontal à campanha não aparece com voz própria. O ângulo surge apenas de forma indireta, pelo registro do pedido de comissão parlamentar mista de inquérito apresentado pelo senador Carlos Viana (PSD-MG) e pela cobrança de que Fábio Luís Lula da Silva preste depoimento à Polícia Federal.
Seguem em aberto a data e o estado escolhidos para o ato com artistas, a confirmação do encontro com lideranças evangélicas, o desfecho da investigação sobre Fábio Luís Lula da Silva, a origem dos vazamentos e o destino do pedido de comissão parlamentar de inquérito no Congresso.