O presidente da França, Emmanuel Macron, reuniu-se em Damasco com o presidente interino da Síria, Ahmed al-Sharaa, na manhã desta terça-feira, poucas horas depois de duas bombas explodirem perto do hotel onde ele havia passado a noite. As autoridades sírias relataram que ao menos 18 pessoas ficaram feridas, entre elas quatro policiais. A Presidência francesa informou que Macron não ouviu as explosões e que sua comitiva já havia deixado o local, seguindo rumo ao palácio presidencial, quando os artefatos foram detonados.
O episódio ofuscou o simbolismo da viagem. Trata-se da primeira visita de um chefe de Estado da União Europeia à Síria desde que forças lideradas por al-Sharaa derrubaram o ditador Bashar al-Assad, em 2024, encerrando mais de duas décadas de poder da família Assad. Macron chegou ao país acompanhado de uma delegação econômica, com a intenção de assinar memorandos de entendimento e discutir segurança regional, negócios e a reconstrução de um país arrasado por cerca de catorze anos de guerra.
As coberturas convergem sobre os fatos centrais. As explosões ocorreram em uma área movimentada, entre o Ministério do Turismo e o Museu Nacional, em frente ao hotel Four Seasons. Segundo relatos, um dos artefatos estava escondido em um veículo estacionado e o outro em uma lixeira. As forças de segurança isolaram as ruas, reforçaram o esquema de proteção e iniciaram buscas para identificar os responsáveis. Nenhum grupo havia reivindicado a autoria até a publicação das reportagens. Durante a reunião, Macron afirmou que a França está pronta para ajudar a reestruturar o setor bancário e a economia síria, incluindo apoio ao Banco Central do país.
As ênfases da cobertura, porém, se dividem. A cobertura de centro, predominante no cluster, tratou a visita como um gesto diplomático relevante e detalhou tanto a agenda econômica quanto o roteiro seguinte de Macron, que deveria seguir para uma cúpula da Otan na Turquia. Veículos de esquerda destacaram sobretudo a fragilidade do novo governo e o contraste entre a oferta de dinheiro ocidental para reconstrução e a violência persistente contra minorias religiosas e étnicas, apresentando a reaproximação como movida por interesses econômicos. A leitura mais à direita, reconstruída a partir dos mesmos fatos, tenderia a enquadrar a viagem como aposta na estabilização institucional da Síria pós-Assad e a atribuir os atentados ao esforço de grupos jihadistas, como o Estado Islâmico, para desestabilizar a nova ordem. O grupo vem reivindicando ataques contra as forças do governo de al-Sharaa desde fevereiro.
Pairam ainda várias incertezas. Nenhuma reportagem identifica a autoria das explosões desta terça-feira, e não há detalhamento sobre o valor da ajuda francesa nem sobre o conteúdo dos memorandos de entendimento a serem assinados. Também permanece em aberto até que ponto a promessa de al-Sharaa de construir uma ordem inclusiva resistirá aos episódios de violência sectária que, no último ano, teriam matado centenas de pessoas no país.