O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR, realizou nesta semana em Washington uma série de audiências públicas para discutir a proposta de sobretaxar produtos brasileiros. A medida se baseia na investigação da chamada Seção 301, da Lei de Comércio norte-americana de 1974, e ameaça impor uma tarifa adicional de até 25% sobre itens exportados pelo Brasil. A decisão final dos Estados Unidos está prevista para o dia 15 de julho.
O governo de Luiz Inácio Lula da Silva optou por não participar das sessões com manifestações formais. Em vez disso, enviou técnicos da embaixada brasileira em Washington apenas como observadores, encarregados de acompanhar os acontecimentos sem interferir. A cobertura de centro relatou que essa é uma praxe diplomática do Brasil, que costuma enviar representantes a eventos estrangeiros com potencial de impacto sobre o país. Paralelamente, o Itamaraty, pelo ministro das Relações Exteriores Mauro Vieira, enviou uma carta ao USTR contestando formalmente as acusações e classificando as conclusões da investigação como errôneas. O governo brasileiro defende que as divergências comerciais sejam resolvidas pelos mecanismos da Organização Mundial do Comércio, e não por medidas unilaterais.
Entre os depoentes inscritos estava o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, além de representantes do setor produtivo, como o ex-diretor-geral da OMC Roberto Azevêdo, que representou a Confederação Nacional da Indústria. A CNI estima que a aplicação da tarifa de 25% poderia afetar cerca de 4,1 mil itens e atingir aproximadamente US$ 14,9 bilhões em exportações brasileiras.
As três coberturas convergem nos fatos centrais: o embate gira em torno do Pix, do etanol, do combate à corrupção e das políticas ambientais brasileiras. O governo brasileiro sustenta que o Pix é uma infraestrutura pública neutra, aberta a empresas nacionais e estrangeiras, e cita a participação de companhias americanas como Google Pay e Visa no ecossistema. Já os Estados Unidos alegam que o Banco Central concede tratamento preferencial ao sistema, criando condições desiguais.
As coberturas divergem na ênfase. A cobertura de centro concentrou-se na estratégia diplomática, no grupo de trabalho criado após o encontro entre Lula e Donald Trump, e na proposta brasileira de reduzir tarifas de cerca de 300 linhas para vários países, respeitando as regras da OMC. Veículos de direita enfatizaram as queixas norte-americanas, detalhando a obrigatoriedade do Pix imposta pelo Banco Central, a tarifa brasileira de 18% sobre o etanol americano ante os 2,5% cobrados pelos EUA, e a persistência da pirataria na Rua 25 de Março, em São Paulo. Uma leitura de esquerda tende a enquadrar o tarifaço como pressão unilateral que fere a soberania econômica do país e ameaça empregos, além de ver com desconfiança a presença de um opositor como Flávio Bolsonaro em audiência de governo estrangeiro.
O que ainda não se sabe é se os Estados Unidos vão de fato aplicar a sobretaxa até o prazo de 15 de julho, qual será o percentual final e se as concessões oferecidas pelo Brasil, que deixou o Pix de fora do documento por considerá-lo inegociável, serão suficientes para evitar a taxação.