A diretora-executiva jurídica da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Luciana Nunes Freire, tornou-se o centro de uma polêmica ao criticar, em audiência pública no Senado, a proposta que extingue a escala de trabalho 6x1. Na sessão, ela argumentou que a redução da jornada prejudicaria o acesso a serviços aos fins de semana. "Eu trabalho cinco por dois e, aos sábados, qualquer mulher que está neste plenário vai ao salão de cabeleireiro. E vai estar fechado aos sábados para nos atender?", questionou. Freire acrescentou que, aos domingos, faz compras no supermercado e busca remédios para a mãe, temendo que tudo feche.
A cobertura de centro relatou o episódio de forma factual e fez uma ressalva importante: a Proposta de Emenda à Constituição já aprovada pela Câmara apenas reduz o teto de horas semanais de 44 para 40 e prevê duas folgas obrigatórias por semana, preferencialmente nos fins de semana. O texto, segundo esse relato, não veda o trabalho em nenhum setor nem determina o fechamento de comércio, farmácias ou salões. Ou seja, o receio de que tudo fecharia não encontra amparo direto no que a proposta estabelece.
Veículos de esquerda destacaram a fala como retrato de um privilégio de classe. Segundo essa leitura, uma dirigente patronal que já goza do regime 5x2 defenderia negar folga a milhões de trabalhadores para manter sua própria comodidade. A deputada Erika Hilton, do PSOL, autora de uma das PECs sobre o tema, afirmou que a diretora "se acha proprietária da vida e do trabalho alheio" e não conheceria o conceito de escala. Outros parlamentares do PT, como Carlos Zarattini, Dandara Tonantzin e Lindbergh Farias, contestaram a declaração: Zarattini chamou a fala de "desonesta", Tonantzin falou em "ranço de resto escravocrata" e Lindbergh defendeu que o trabalhador também merece descansar, ir ao salão e almoçar com a família.
Como apenas veículos de esquerda e de centro cobriram o caso, não há registro direto de cobertura à direita neste conjunto de matérias. Ainda assim, é possível antecipar a leitura provável desse campo a partir dos fatos: a tendência seria enxergar o episódio como a transformação de uma ponderação econômica legítima em ataque pessoal, ressaltando o custo da redução de jornada sobre a produtividade das empresas, a oferta de serviços e a liberdade de contratação, num debate dominado pelo campo governista e sem contraponto empresarial estruturado.
O que ainda não se sabe é qual será o desfecho da tramitação no Senado, se haverá alterações no texto vindo da Câmara e como a mudança, se aprovada, seria implementada na prática em setores que operam nos fins de semana. Também permanece em aberto se a Fiesp apresentará uma posição institucional mais detalhada além da fala pontual de sua diretora.