Um racha dentro da base aliada de Jair Bolsonaro ganhou repercussão nesta semana depois que o deputado federal Zé Trovão (PL-SC), conhecido por seu perfil de apoiador histórico do ex-presidente, afirmou publicamente que o silêncio de Bolsonaro após a derrota eleitoral de 2022 foi um ato covarde. Em entrevista dada durante um podcast, o parlamentar disse que Bolsonaro deveria ter reconhecido o resultado das urnas e orientado seus apoiadores a aceitá-lo, evitando assim episódios como as prisões de manifestantes que permaneceram acampados em frente a quartéis à espera de uma reação do então presidente.
Horas depois de a declaração ganhar repercussão, Zé Trovão recuou publicamente. Em vídeo divulgado nas redes sociais, o deputado tentou minimizar suas palavras e voltou a defender Bolsonaro, classificando a situação judicial do ex-presidente como uma injustiça histórica. Um programa de análise política, o Blog do Noblat, expôs o que chamou de 'VAR da política': ao reproduzir o áudio original da entrevista, os jornalistas confirmaram que Zé Trovão de fato havia chamado Bolsonaro de covarde, contrariando a versão apresentada no vídeo de desmentido.
O episódio provocou reação imediata de Eduardo Bolsonaro, que atacou publicamente o parlamentar nas redes sociais. O ex-deputado relembrou que Zé Trovão foi alvo de prisão preventiva em 2021, também por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, no âmbito de investigações sobre atos antidemocráticos, e que, mesmo assim, disputou as eleições de 2022 pelo mesmo partido de Bolsonaro. 'Além de ter se livrado, ainda saiu candidato pelo partido de Bolsonaro, para agora chamá-lo de covarde', escreveu Eduardo no X. Apoiadores de Bolsonaro também compartilharam críticas adicionais a Zé Trovão, lembrando que o deputado catarinense apoiou a candidatura de Pablo Marçal à Prefeitura de São Paulo em 2024, em vez do candidato respaldado pelo próprio Bolsonaro, Ricardo Nunes.
Todos os relatos convergem sobre os fatos centrais: a declaração inicial de Zé Trovão, o recuo horas depois e a resposta pública de Eduardo Bolsonaro. Onde a cobertura diverge é no enquadramento do pano de fundo jurídico. Veículos de esquerda destacaram que Jair Bolsonaro foi condenado a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado após a derrota eleitoral de 2022, e que atualmente cumpre prisão domiciliar por decisão do STF, por razões humanitárias, um enquadramento que reforça a legitimidade do processo judicial e expõe contradições dentro do próprio campo bolsonarista. A cobertura de centro, por sua vez, tratou o episódio de forma mais direta, focando na contradição pessoal entre a fala original de Zé Trovão e seu desmentido posterior, com tom mais irônico do que analítico sobre o contexto institucional. Na ausência de cobertura direta de veículos de direita sobre o caso até o momento, a leitura mais provável desse espectro tenderia a enquadrar a cobrança de Eduardo Bolsonaro como legítima exigência de coerência, e o episódio como pontual, e não como sintoma de fratura estrutural na base bolsonarista.
Ainda não está claro se a controvérsia terá desdobramentos práticos na relação entre Zé Trovão e a cúpula do PL, nem se o episódio afetará sua atuação parlamentar nos próximos meses. Também não há confirmação pública sobre eventual resposta direta do deputado às acusações mais recentes de Eduardo Bolsonaro.