O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, deve encaminhar ainda nesta semana à Procuradoria-Geral da República um pedido para que o órgão se manifeste sobre a abertura de investigação do financiamento do filme Dark Horse, produção que retrata o ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo a cobertura, o envio deve ocorrer entre terça e quarta-feira, e a decisão final sobre instaurar ou não um inquérito caberá ao procurador-geral da República, Paulo Gonet.
O caso nasceu de uma notícia-crime apresentada pelo deputado federal Lindbergh Farias, do PT do Rio de Janeiro. Na representação, o parlamentar pede a apuração de repasses feitos pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master, para a produção do longa-metragem. Farias sustenta que há possíveis conexões entre o dinheiro do filme, as investigações sobre o Banco Master e integrantes da família Bolsonaro, entre eles o senador Flávio Bolsonaro e o ex-deputado cassado Eduardo Bolsonaro, que atualmente vive nos Estados Unidos.
Há pontos em que as diferentes coberturas convergem. Todas relatam que o procedimento chegou primeiro ao gabinete de Alexandre de Moraes, mas foi redistribuído a André Mendonça depois que o presidente do STF, Edson Fachin, entendeu que os fatos têm conexão com a chamada Operação Compliance Zero, que reúne as investigações do Banco Master. Também é ponto comum que, até o momento, não existe investigação formal aberta sobre o financiamento do filme, e que o rito prevê a manifestação prévia da PGR antes de qualquer diligência.
A cobertura de centro detalhou os números do caso. Uma perícia privada contratada pela produtora Go Up Entertainment apontou custo total de 13,4 milhões de dólares para o filme, cerca de 75 milhões de reais. Esse valor corresponderia a 56% dos 134 milhões de reais que Daniel Vorcaro teria acordado transferir, em conexão com Flávio Bolsonaro, para o fundo Havengate Development, administrado por um advogado ligado a Eduardo Bolsonaro. A mesma cobertura relatou que a apuração investiga suspeita de uso de verba pública em um contrato de 108 milhões de reais firmado entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil, e que o gabinete de Mendonça impôs sigilo ao processo.
Veículos de esquerda enfatizaram o ângulo das conexões financeiras entre o Banco Master, Daniel Vorcaro e o clã Bolsonaro, destacando o áudio em que Flávio Bolsonaro pede apoio financeiro para viabilizar a produção e tratando o episódio como sinal de um padrão de propaganda política sustentada por recursos sob suspeita. A cobertura de centro manteve tom mais factual, descrevendo o rito processual e os valores sem atribuir conclusões. Já uma leitura de direita tende a lembrar que a notícia-crime parte de um adversário político, que não há investigação formal aberta e que a captação de recursos por fundos privados não é, por si só, ilícita.
O que ainda não se sabe é se a PGR verá elementos para abrir inquérito, arquivar o pedido ou pedir diligências. Também não há, nas reportagens, manifestação da defesa dos citados nem esclarecimento sobre a destinação final dos recursos. O prazo habitual para a PGR se pronunciar é de cinco dias, mas o recesso do Judiciário pode ampliar esse período.