O mercado financeiro elevou a projeção para a taxa básica de juros, a Selic, e agora vê o indicador em 14% ao fim de 2026. A revisão consta do boletim Focus, levantamento semanal de expectativas que o Banco Central divulgou na manhã de 22 de junho de 2026 com base na consulta a analistas. O número representa alta de 0,25 ponto em relação à projeção da semana anterior. As estimativas para os anos seguintes seguiram em linha com a divulgação passada, em torno de 12% para 2027.
No mesmo relatório, a projeção para a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo, o IPCA, subiu para 5,33% em 2026. Foi a 15ª alta consecutiva da estimativa, que segue acima do teto da meta de inflação, fixada pelo Conselho Monetário Nacional em 3% com tolerância de 1,5 ponto para cima ou para baixo. A projeção de crescimento do Produto Interno Bruto foi revisada de 1,96% para 1,98%, e a expectativa para o câmbio foi mantida em R$ 5,20.
A cobertura de centro relatou os números de forma direta e os situou no contexto da política monetária recente. O Comitê de Política Monetária do Banco Central, o Copom, havia reduzido a Selic de 14,5% para 14,25% na reunião de junho, e a próxima reunião do colegiado está marcada para 4 e 5 de agosto. Veículos de centro também compararam as projeções do Focus com as do Ipea, do governo federal e do Fundo Monetário Internacional, e registraram que parte da pressão inflacionária está associada à alta do petróleo provocada pela guerra no Oriente Médio.
É nesse ponto que as ênfases divergem. Em leituras alinhadas à esquerda, a manutenção dos juros em patamar de dois dígitos cobra um preço social elevado, pois encarece o crédito, freia o investimento produtivo e pesa sobre trabalhadores e famílias endividadas. Sob essa ótica, combater com juros internos uma inflação de origem externa, ligada ao petróleo, transfere o custo do ajuste para a população. Já veículos de direita enfatizaram que 15 altas seguidas da projeção de inflação, com o índice furando o teto da meta, indicam expectativas desancoradas, e que a elevação da Selic para 14% é resposta necessária e disciplina monetária. Para essa leitura, a credibilidade do Banco Central depende de sustentar o aperto até a inflação convergir, sem ceder a pressões por cortes prematuros.
O que ainda não se sabe é como a autoridade monetária vai calibrar o próximo passo. O Copom sinalizou que a restrição acumulada permite agora diferentes dosagens de juros, mas o boletim Focus não antecipa a decisão de agosto nem esclarece por quanto tempo a inflação seguirá acima do teto. Também permanece em aberto o efeito da trajetória do petróleo e do câmbio sobre as próximas leituras do IPCA.