A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) tornou-se alvo de parte da própria base bolsonarista depois de elogiar, em 3 de julho de 2026, a Política Nacional de Educação Bilíngue de Surdos, lançada pelo Ministério da Educação por meio da Portaria nº 588. Ela classificou o programa como um "sonho realizado" e parabenizou a comunidade surda, afirmando que a defesa das pessoas com deficiência "está acima de qualquer ideologia ou partido".
A reação nas redes sociais foi imediata. Deputados, senadores e lideranças do Partido Liberal passaram a compartilhar montagens da ex-primeira-dama com a camisa do PT e acusações de traição. No dia seguinte, Michelle rebateu as críticas, reforçando que a política havia sido elaborada ainda durante o governo de seu marido, Jair Bolsonaro, mas que sua tramitação foi atrasada por uma ação judicial, o que impediu a entrega da medida antes do fim do mandato.
O episódio se soma a uma crise que já vinha se desenhando dentro do PL. Semanas antes, Michelle publicara um vídeo em que acusava o enteado, o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência em 2026, de tê-la tratado com desrespeito durante uma ligação telefônica. A repercussão levou Michelle a deixar o comando do PL Mulher, e o próprio Flávio pediu desculpas públicas dias depois. Para conter novamente o desgaste, Michelle publicou, em 8 de julho, um vídeo em parceria com a aliada Andréa Pontes, que defendeu o histórico da ex-primeira-dama em pautas de acessibilidade e afirmou que a causa das pessoas com deficiência "não pertence a nenhum partido político".
A cobertura de centro relatou a sequência dos fatos de forma factual, sem atribuir motivação política à crítica recebida por Michelle, e destacou que ela chegou a admitir resistência a subir no palanque de Flávio durante o processo eleitoral. Já veículos de esquerda destacaram que o ataque à ex-primeira-dama expõe a intolerância de setores bolsonaristas a qualquer reconhecimento de uma conquista do governo Lula, e reforçaram que a política atende uma demanda histórica da comunidade surda: segundo o MEC, apenas 12% das redes de ensino oferecem material pedagógico em Libras e o país conta com pouco mais de 2.500 professores com formação específica para o ensino bilíngue.
A leitura mais provável de veículos de direita, embora não tenha havido cobertura direta identificada nesse recorte, tenderia a enquadrar o episódio como uma disputa de poder interna no PL às vésperas da eleição de 2026, e não como uma ruptura ideológica, valorizando o fato de que a própria Lei Amália Barros, sancionada por Jair Bolsonaro, já validava o compromisso da família com a pauta da deficiência antes desse episódio.
O que ainda não se sabe é se Michelle e Flávio conseguirão uma reconciliação antes do início oficial da campanha presidencial, nem qual será o desfecho da disputa interna pelo comando do PL Mulher, hoje em aberto.