O candidato do Partido Liberal à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, e a candidata ao Senado pelo Distrito Federal pela mesma legenda, Michelle Bolsonaro, voltaram a aparecer juntos em um vídeo publicado nas redes sociais em 19 de agosto de 2026. As imagens mostram os dois sorrindo diante de uma tela verde enquanto toca o jingle da campanha, que repete o verso “Vamos entrar com o pé direito que o Brasil tem futuro” e afirma que “a mudança já está começando”. Na legenda da publicação, a ex-primeira-dama escreveu “Vamos juntos resgatar o nosso Brasil”.
A gravação encerra a fase mais visível de um afastamento que veio a público no fim de junho. O atrito envolveu divergências sobre alianças eleitorais do partido, inclusive no Ceará, e sobre a atuação de Michelle Bolsonaro no PL Mulher. O desgaste chegou a colocar em dúvida a candidatura dela ao Senado. O primeiro movimento de reconciliação ocorreu em 23 de julho, quando o senador publicou um vídeo pedindo desculpas à madrasta; ela respondeu publicamente que aceitava o gesto e defendeu a reunião de forças em torno de um mesmo projeto político. Dois dias depois, a convenção do partido oficializou a candidatura presidencial dele, sem a presença física dela. O primeiro encontro presencial dos dois após a crise aconteceu em 11 de agosto, em Brasília, também para gravar material de campanha.
A cobertura de centro relatou os fatos de forma cronológica e convergente: o vídeo, o jingle, a articulação de bastidor conduzida pelo presidente do PL, Valdemar Costa Neto, com participação da senadora Damares Alves e da governadora do Distrito Federal, Celina Leão, e a declaração do dirigente partidário de que a ex-primeira-dama terá papel central na campanha. Essa parte da cobertura também registrou a origem do conflito, incluindo a queixa de Michelle Bolsonaro de ter sido humilhada e maltratada em uma conversa por telefone, e detalhou a estratégia eleitoral em preparação: destaque para a ex-primeira-dama nas redes sociais e nos programas partidários, com o objetivo declarado de atrair os segmentos feminino e evangélico, reutilização de material audiovisual de Jair Bolsonaro das disputas de 2018 e 2022, e manutenção de uma ofensiva contra os adversários apoiada em inquéritos da Polícia Federal sobre suspeitas de tráfico de influência envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, que nega todas as acusações.
Veículos de direita enfatizaram o resultado, e não a origem da crise: o vídeo apareceu como reforço de uma aliança eleitoral e a ausência na convenção de 25 de julho foi atribuída a uma crise de enxaqueca que levou a candidata ao hospital. Nessa cobertura, a acusação de humilhação feita em junho não é mencionada, e o episódio é resumido a divergências internas do partido já superadas. Veículos de esquerda não haviam registrado o episódio até o fechamento desta análise, de modo que a leitura crítica sobre o caráter familiar do arranjo e sobre o uso eleitoral da imagem do ex-presidente não aparece no material disponível.
Há pontos ainda em aberto. Não se sabe qual será o formato concreto da participação de Michelle Bolsonaro no horário eleitoral, nem se o uso da imagem de Jair Bolsonaro e de recursos de inteligência artificial nas peças de campanha resistirá a eventual contestação na Justiça Eleitoral, cujo aval sobre a inteligência artificial ainda é aguardado. Também não há resposta pública do candidato à acusação original feita pela madrasta, nem avaliação medida do efeito da reconciliação sobre a intenção de voto. Paralelamente, a Polícia Federal abriu investigação sobre o episódio da falsa filiação do senador ao partido Missão, registro já revertido por decisão judicial, e o desdobramento desse caso segue indefinido.