A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro acertou sua saída da presidência do PL Mulher, órgão feminino do Partido Liberal. A decisão foi comunicada pessoalmente ao presidente do PL, Valdemar Costa Neto, na sede da legenda, em Brasília. O movimento ocorre poucos dias depois de Michelle criticar publicamente o enteado mais velho, o senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro.
A cobertura de centro relatou o episódio de forma direta: Michelle tem demonstrado incômodo com a onda de ataques sofrida por ela e por aliadas desde a crítica ao enteado. Pessoas próximas afirmam que candidatos indicados por ela vinham sendo desconsiderados e que não faria sentido permanecer à frente do cargo sem participar das decisões partidárias. Nesse enquadramento, o afastamento aparece como consequência de uma disputa interna por espaço às vésperas da pré-campanha presidencial de 2026.
Veículos de esquerda foram além do relato e leram a saída como o retrato de uma crise misógina dentro do bolsonarismo. Para essa cobertura, o rompimento com Flávio expõe o teto de vidro imposto às lideranças femininas da direita, relegadas, segundo a análise, a um papel decorativo ou doméstico quando ousam disputar poder real. Essa cobertura destacou que a própria Michelle relatou ter sido humilhada e desrespeitada pelo enteado em uma ligação sobre a estratégia eleitoral no Ceará, e que o comunicador bolsonarista Paulo Figueiredo, de Miami, a atacou ao chamá-la de feminista e afirmar que mulheres votam mal. A reação institucional teria vindo da senadora Soraya Thronicke, que classificou Figueiredo de covarde e acionou a Procuradoria-Geral da República por violência política de gênero. A esquerda também frisou que, nas pesquisas citadas, o presidente Lula lidera com ampla vantagem entre as eleitoras.
Veículos mais alinhados à direita, quando abordam o tema, tendem a enfatizar a autonomia da decisão e a normalidade da disputa por influência dentro de um partido em ano eleitoral. Nesse ângulo, a justificativa oficial de que Michelle se dedicará aos cuidados do marido, em prisão domiciliar, é tomada como razão legítima, e a nota de desculpas emitida por Flávio é vista como gesto de apaziguamento do clã, em nome da unidade necessária à corrida presidencial.
O que ainda não se sabe é o desdobramento efetivo do atrito: se a saída de Michelle sela um rompimento duradouro com Flávio, quem assumirá o PL Mulher e qual será o peso do episódio sobre a pré-campanha do senador entre o eleitorado feminino. Também permanece em aberto o andamento da representação apresentada à PGR contra Paulo Figueiredo.