A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro compartilhou nesta segunda-feira um vídeo em que o ex-governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho relata a chamada 'noite das astronautas', uma suposta festa sexual que teria sido organizada pelo banqueiro Daniel Vorcaro, preso e ex-controlador do Banco Master. A publicação aconteceu em meio à crise aberta entre Michelle e seu enteado, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República.
No relato, feito no podcast 'Pode, Garotinho?', o ex-governador afirma ter recebido um material que mostraria deputados, senadores e governadores em uma confraternização com mulheres estrangeiras usando capacetes de astronauta. Garotinho diz que os convidados levantavam a viseira dos capacetes para escolher as acompanhantes e que entre os presentes havia 'homens que defendem a família'. Ele descreve as mulheres como estrangeiras contratadas por não falarem português. Um ponto é comum a toda a cobertura: o ex-governador não divulgou a gravação na íntegra, não identificou nenhum dos supostos participantes e admite não ter confirmado a autenticidade do conteúdo.
A cobertura de centro relatou o episódio de forma factual, atribuindo todas as afirmações a Garotinho e registrando suas ressalvas, e situou a postagem no contexto do desgaste entre Michelle e Flávio, agravado depois que a ex-primeira-dama disse ter sido humilhada, maltratada e desrespeitada pelo senador. Veículos de esquerda enfatizaram as ligações da cúpula bolsonarista com Vorcaro e o contraste entre o discurso de 'defesa da família' e o teor da suposta festa, agregando apuração própria: uma planilha apreendida pela Polícia Federal no celular do banqueiro apontaria gastos de R$ 11,9 milhões em eventos com políticos em Nova York, incluindo a rubrica 'Noite das Astronautas'. Esses veículos lembraram ainda que Vorcaro é alvo da Operação Compliance Zero, deflagrada após a liquidação extrajudicial do Banco Master pelo Banco Central em novembro de 2025, e que a investigação apura a aplicação irregular de cerca de R$ 3 bilhões do Rioprevidência.
Veículos de direita, por sua vez, tenderiam a ressaltar que a acusação parte de um adversário político: Garotinho é pré-candidato ao governo do Rio, teve uma condenação de quase quatorze anos anulada pelo STF em março por falha na cadeia de custódia das provas da Operação Chequinho e tem interesse eleitoral no embate. Sob essa ótica, amplificar uma alegação sem prova material, sem nomes e sem perícia, em meio a uma briga familiar, seria fragilizar uma candidatura por boato.
O que ainda não se sabe é o essencial: o vídeo não foi tornado público, não há confirmação independente de sua existência ou autenticidade, nenhum dos supostos participantes foi identificado e não houve manifestação de Flávio Bolsonaro nem da defesa de Vorcaro sobre o relato. Sem essas peças, a denúncia permanece no campo da alegação pública, enquanto o impacto político sobre a pré-campanha já se faz sentir.