O senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência em 2026, reuniu-se nesta quarta-feira, em Brasília, com lideranças femininas do Partido Liberal de 20 estados. O objetivo declarado foi encerrar os atritos com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e definir os pilares de uma campanha voltada ao eleitorado feminino. No encontro, Flávio afirmou que Michelle sabe que ele é a única alternativa para mudar o país e evitar, segundo ele, mais quatro anos de governo do PT.
Veículos de centro relataram o evento em tom factual, reproduzindo as falas do senador. Ele elogiou o trabalho de Michelle no PL Mulher, disse respeitá-la e manifestou convicção de que ela caminhará junto com a campanha. Segundo essa cobertura, os eixos do projeto seriam a autonomia econômica, a saúde e, prioritariamente, a segurança da mulher, com promessa de endurecer penas para agressores e fortalecer a prevenção ao feminicídio. A mesma cobertura registrou frustração de parte dos participantes com a ausência de nomes como as senadoras Tereza Cristina e Damares Alves.
Veículos de esquerda deram enquadramento bem distinto. Para essa cobertura, as publicações de Michelle nas redes sociais deixaram de ser desabafos familiares e se tornaram recados políticos ao enteado. Segundo essa leitura, ela divulgou vídeos acusando Flávio de desrespeito e maus-tratos em ligações telefônicas, muitas vezes em dias de jogo da Seleção, quando a audiência é maior. A cobertura de esquerda destacou ainda que aliados de Eduardo e Flávio, como Paulo Figueiredo e Allan dos Santos, teriam agravado a crise com um discurso de que mulher não sabe votar, e tratou o episódio como sinal de machismo dentro do campo bolsonarista.
Os dois lados convergem em um ponto central: existe uma crise real entre Michelle e Flávio às vésperas do ciclo eleitoral de 2026, e ela envolve a relação do senador com o banqueiro Daniel Vorcaro. Desde maio, vieram a público áudios, mensagens e relatos que apontam proximidade entre os dois. Flávio sustenta, perante aliados, que não há qualquer fato novo capaz de comprometê-lo e afirma que o vínculo com Vorcaro se limitou ao patrocínio do filme Dark Horse, inspirado na trajetória de Jair Bolsonaro.
É na interpretação dos motivos e das consequências que a cobertura se divide. Veículos de esquerda enfatizam Michelle como figura acuada, tratada como ameaça interna, cuja única saída política seria expor o que sabe. Já o enquadramento mais próximo do campo conservador, presente nas falas reproduzidas pela cobertura de centro, apresenta os atritos como turbulência familiar passageira, que não abala a unidade do projeto eleitoral da direita.
O que ainda não se sabe é o teor concreto do que Michelle diz conhecer sobre a relação de Flávio com Vorcaro, se há de fato material comprometedor e qual será o desdobramento eleitoral do embate. Também permanece em aberto se a reconciliação anunciada por Flávio se sustentará e como a ausência de aliadas de peso no evento afetará a articulação da campanha entre as mulheres.