Empresas sediadas fora do Brasil, ou subsidiárias delas, respondem por 42% dos pedidos de exploração de terras raras protocolados na Agência Nacional de Mineração, embora representem apenas 12% dos titulares de requerimentos. O dado vem de um levantamento sobre processos minerários em que as terras raras aparecem como substância principal. Dos 2.727 requerimentos apresentados até junho de 2026, 86% foram protocolados de 2023 em diante, e o grupo ligado a capital estrangeiro controla 31 dos 45 processos mais avançados, já em operação ou em pré-operação comercial.
Terras raras reúnem 17 elementos químicos usados em ímãs de alta potência, veículos elétricos, eletrônicos, equipamentos médicos e indústria de defesa. O Brasil tem a segunda maior reserva do mundo. Entre os investidores estrangeiros, as mineradoras australianas lideram com 695 requerimentos, dos quais 217 pertencem à Borborema Recursos Minerais, subsidiária da Brazilian Rare Earths, com sede em Sydney. As empresas dos Estados Unidos vêm em seguida, com 347 pedidos, e 181 deles estão com a Alpha Minerals Brazil, incorporada pela Rare Earth Americas, sediada no Texas e originalmente constituída nas Ilhas Cayman. A canadense Aclara Resources também aparece entre as maiores requerentes.
A aceleração tem data e causa apontadas na cobertura: a China, que domina extração, processamento e produção de ímãs, restringiu as exportações de terras raras aos Estados Unidos em resposta às tarifas do governo Donald Trump, e os norte-americanos passaram a buscar fornecimento alternativo. O caso mais visível é o da Serra Verde, instalada em Goiás e única produtora comercial do país, capaz de fornecer os quatro elementos magnéticos considerados críticos. A empresa recebeu 565 milhões de dólares do banco de desenvolvimento do governo norte-americano e depois foi comprada por cerca de 2,8 bilhões de dólares pela USA Rare Earth, companhia que tem o governo dos Estados Unidos como acionista minoritário. Em seguida, a compradora adquiriu participação na francesa Carester, especializada em separação e processamento, num arranjo em que a Serra Verde entra como fornecedora de matéria-prima.
Os veículos de esquerda que publicaram o levantamento enfatizaram dois pontos: a ausência de menção a transferência de tecnologia ao Brasil nos comunicados das empresas, o que contraria a prioridade declarada do governo brasileiro por projetos que desenvolvam capacidade industrial nacional, e o risco socioambiental. Um quarto dos requerimentos se sobrepõe a unidades de conservação ou a territórios de comunidades tradicionais, ou está a até 10 quilômetros deles, distância em que especialistas afirmam haver dano possível. Um projeto de jornalismo de dados citado na apuração calcula que até 283 áreas protegidas, entre terras indígenas, territórios quilombolas e unidades de conservação, podem ser atingidas.
A cobertura de centro reproduziu o dado central de forma resumida, sem o recorte territorial: registrou os 42% dos pedidos, a origem australiana, norte-americana e canadense do capital e a metodologia baseada em registros públicos. Veículos de direita não publicaram o levantamento até o momento, o que deixa sem contraponto na cobertura o argumento de que o capital externo é o que viabiliza jazidas caras e de baixa taxa de sucesso. Esse argumento aparece dentro da própria apuração, pela voz do Instituto Brasileiro de Mineração: de cada mil ocorrências potenciais, cem justificam sondagem e apenas duas viram projetos bons, o que exige investidor disposto a assumir prejuízo.
O que ainda não se sabe é quanto desses requerimentos vira licença. O levantamento mede pedidos protocolados, não autorizações concedidas, e não há detalhamento público sobre quantos processos foram indeferidos por sobreposição territorial. Também segue indefinido se o governo brasileiro vai condicionar novas autorizações a contrapartidas de industrialização local, e não há manifestação do regulador sobre como pretende fiscalizar projetos próximos a áreas protegidas diante do volume recorde de pedidos.