As mortes no trânsito relacionadas ao consumo de álcool voltaram a crescer no Brasil depois da pandemia, segundo levantamento do Cisa (Centro de Informações sobre Saúde e Álcool) divulgado no Dia Nacional da Lei Seca. Em 2024, dado mais recente, o país registrou 6,2 óbitos por 100 mil habitantes em acidentes que tiveram o álcool como causa, a maior taxa desde 2016. Em números absolutos, foram 13.075 mortes, alta de 6,2% em relação a 2023. Os dados vêm de ocorrências registradas no DataSUS, que reúne informações dos sistemas de saúde do país.
O estudo expõe uma reversão de tendência. A cobertura de centro relatou que, após cinco anos de queda, o indicador voltou a subir a partir de 2020, quando foram registradas 11.600 mortes. Olhando o período mais longo, de 2010 a 2024, a mortalidade associada ao álcool caiu 19,5%, saindo de cerca de 15 mil óbitos para os atuais 13.075. A Lei Seca, que instituiu tolerância zero de álcool para quem dirige, foi sancionada em 2006 e completou 18 anos.
Há pontos em que toda a cobertura converge. A frota de motocicletas cresceu cerca de 20% desde 2019, saltando de 23,6 milhões para 28,3 milhões de unidades, segundo a Senatran, e essa expansão é apontada como hipótese central para o aumento das mortes. A coordenadora do Cisa, a socióloga Mariana Thibes, afirma que o trânsito ficou mais complexo e que um motorista alcoolizado atinge mais facilmente uma moto. Estudo do Ipea indica que 40% das mortes no trânsito em 2023 foram de motociclistas. Os homens são as principais vítimas, somando 86,7% das mortes, e os estados de Tocantins, Piauí e Mato Grosso lideram as taxas. Outro consenso: mesmo com a fiscalização aumentando, as mortes não cederam. Em São Paulo, o Detran mais que dobrou o número de blitze, passando de 565 operações em 2024 para 1.272 no ano seguinte, com cerca de 20 mil autuações por alcoolemia.
A cobertura difere na ênfase. Veículos de esquerda destacaram o caráter de saúde pública e a vulnerabilidade dos mais expostos, como os homens jovens e os entregadores de aplicativo, e enfatizaram que a resposta passa por mais investimento do Estado em prevenção, atendimento de emergência e alternativas de transporte noturno acessível. Já uma leitura de direita tende a enfatizar que mais fiscalização e mais multa não resolveram o problema sozinhas, apontando que motoristas burlam as blitze com aplicativos e apostam na impunidade, o que recoloca a responsabilidade individual e a eficiência das ações no centro do debate. A própria coordenadora do Cisa reconhece que a Lei Seca, embora seja referência mundial, não faz milagre isolada, e defende combinar educação, prevenção e fiscalização baseada em evidências.
O que ainda não se sabe é o peso exato dos motociclistas entre as mortes por álcool: o levantamento não especifica esse percentual, ainda que aponte a alta da frota como explicação. Também permanecem em aberto as razões estruturais que fazem alguns estados ter taxas muito acima da média nacional, algo que, segundo o Cisa, precisa ser investigado mais a fundo para que o poder público possa dar respostas adaptadas a cada realidade.