O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, esteve em Caracas nesta terça-feira, 30 de junho, para coordenar o reforço da ajuda humanitária do Brasil à Venezuela, atingida por dois terremotos na semana anterior. Os tremores, os mais fortes no país em mais de cem anos, deixaram pelo menos 1.700 mortos, danificaram dezenas de milhares de edifícios e provocaram cerca de 60 mil desabrigados. A missão foi enviada por determinação do presidente Lula e incluiu reuniões com a presidenta encarregada da Venezuela, Delcy Rodríguez, e com o ministro da Defesa venezuelano, Gustavo González López.
A cobertura de centro relatou os fatos com sobriedade: Múcio colocou o Brasil à disposição para colaborar com a reconstrução de casas na região, informação divulgada pelo Ministério da Defesa após o encontro. A comitiva brasileira é integrada por representantes da Caixa Econômica Federal e do Ministério das Cidades, que devem avaliar propostas de recuperação da infraestrutura urbana e habitacional. A experiência acumulada em desastres recentes, como as enchentes no Rio Grande do Sul, foi apontada como referência para o apoio à Venezuela.
A operação humanitária já soma cinco voos da Força Aérea Brasileira. As aeronaves transportaram um hospital de campanha da Marinha do Brasil, instalado em La Guaira, medicamentos e testes rápidos doados pelo Ministério da Saúde, militares, bombeiros de São Paulo, Minas Gerais e Paraná, além de purificadores de água movidos a energia solar. Segundo o Itamaraty, as equipes brasileiras já resgataram ao menos duas pessoas com vida entre os escombros. O total de insumos enviados chegou a cerca de 6,5 toneladas, e técnicos da Anatel levaram equipamentos capazes de localizar sinais de celulares sob os destroços.
Veículos de esquerda enfatizaram o caráter solidário e integracionista da missão. Nessa leitura, a ação expressa a responsabilidade do Estado brasileiro com um país vizinho em tragédia, e a frase do ministro, 'a partir de agora, Brasil e Venezuela são um só país', foi destacada como símbolo da aproximação entre os dois governos. A cobertura reproduziu a fala de que 'o povo venezuelano e o povo brasileiro são irmãos' e valorizou o compromisso de longo prazo com a reconstrução.
Veículos de direita, por outro lado, tendem a ler a mesma declaração como sinal de alinhamento diplomático do Executivo com o governo venezuelano, cuja legitimidade é internacionalmente contestada, e a questionar o emprego de recursos públicos brasileiros, incluindo insumos do SUS, em uma operação no exterior. Nenhuma das reportagens do conjunto traz esse contraponto de forma explícita, o que reforça a percepção crítica de ausência de accountability sobre o custo e o mérito da política externa.
O que ainda não se sabe: não há detalhamento sobre o valor financeiro total da operação brasileira, sobre o cronograma e a forma de participação da Caixa e do Ministério das Cidades na reconstrução, nem sobre quanto tempo durará o compromisso de longo prazo anunciado por Múcio. Também não há, nas matérias, esclarecimento sobre eventual repercussão política interna da declaração de integração feita pelo ministro.