O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, voltaram a se reunir nesta semana, desta vez a sós, para tratar da agenda que o governo quer ver aprovada no Congresso antes do início oficial da campanha eleitoral. O encontro ocorreu um dia depois de uma conversa no Palácio da Alvorada sobre a pauta legislativa e consolidou uma reaproximação recente. Os dois passaram cerca de três meses sem se falar depois de o Senado rejeitar a indicação de Jorge Messias para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), e a retomada do diálogo começou em uma reunião organizada pelo ministro Alexandre de Moraes, com a participação do ministro Cristiano Zanin.
A cobertura de centro relatou que o líder do governo no Senado, Camilo Santana, confirmou o novo encontro e descreveu a relação entre os dois como distensionada. Segundo ele, três projetos concentram a prioridade do Executivo: o fim da escala 6x1, a PEC da Segurança Pública e a proposta que trata das terras raras e dos minerais críticos. A orientação, afirmou, é viabilizar as três matérias antes das eleições. A PEC que acaba com a escala 6x1 já foi aprovada pela Câmara e aguarda análise do Senado, mas a conversa no Alvorada terminou sem calendário de votação definido. A líder do governo no Senado, Teresa Leitão, ficou encarregada, ao lado de Alcolumbre, de sondar os senadores sobre o andamento do texto.
Veículos de esquerda destacaram o outro lado da articulação, na Câmara. O presidente da Casa, Hugo Motta, reuniu-se com o ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães, e com o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, e apontou como prioridade o projeto de lei complementar que trata dos subsídios concedidos à gasolina, que poderão ser estendidos ao etanol. O texto pode ser ampliado para incluir a produção nacional de fertilizantes, a exploração de minerais críticos, a realização da Copa do Mundo Feminina de 2027 e a antecipação de receitas para o Ministério da Defesa. Motta afirmou que a urgência maior é evitar pressão adicional sobre o preço dos combustíveis e, por consequência, sobre a inflação. Essa cobertura também deu peso ao projeto que inclui a misoginia entre os crimes previstos na legislação antirracismo, aprovado pelo Senado e relatado na Câmara pela deputada Tabata Amaral, e registrou a resistência de setores da Casa e da bancada evangélica ao texto.
Os dois enquadramentos convergem no diagnóstico de fundo. O Congresso tem poucos dias úteis pela frente, a campanha começa no domingo e a tendência é de esvaziamento, com um novo período de esforço concentrado previsto apenas entre 31 de agosto e 3 de setembro. Divergem, porém, sobre o que está no topo da fila. A leitura de centro coloca a pauta trabalhista e a segurança pública no centro da estratégia eleitoral do presidente, que afirmou nas redes sociais que os trabalhadores não podem mais esperar pelo fim da escala 6x1. A leitura de esquerda organiza a semana em torno do custo de vida e das pautas de proteção, com os combustíveis e o enfrentamento à violência contra as mulheres à frente. Veículos de direita não registraram o encontro no material analisado, de modo que a crítica habitual desse campo, sobre custo fiscal dos subsídios e uso eleitoral do calendário legislativo, não aparece no conjunto disponível.
Ainda não se sabe quando, nem se, a PEC da escala 6x1 será votada pelo Senado: não há data marcada e o governo trabalha com a hipótese de votação antes do primeiro turno. Também segue em aberto o destino da medida provisória conhecida como taxa das blusinhas, cuja comissão mista sequer foi instalada e cujo prazo de validade termina em setembro. Não há definição sobre a inclusão do projeto contra a misoginia na pauta, decisão que depende do Colégio de Líderes, nem sobre o texto final do projeto dos combustíveis, que depende de acordo entre as lideranças e o Planalto.