O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, rejeitou nesta terça-feira, 4 de agosto, os termos do acordo com o Hamas anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e afirmou que as tropas israelenses não recuarão das posições que ocupam na Faixa de Gaza enquanto o grupo não estiver totalmente desarmado. A declaração, feita em vídeo publicado nas redes sociais, abriu nova dúvida sobre o alcance do entendimento divulgado na semana anterior pelo chamado Conselho de Paz, colegiado criado pelo governo americano para conduzir a segunda fase do plano para Gaza.
Pelo desenho anunciado, o Hamas iniciaria a entrega de armas e Israel suspenderia os ataques e começaria a se retirar dos cerca de 60% do território de Gaza que hoje controla. Autoridades do grupo palestino, sob anonimato, confirmaram o entendimento a uma agência internacional de notícias e disseram que apenas o comitê tecnocrático encarregado de administrar Gaza teria autoridade para contabilizar e apreender o armamento. O Hamas condicionou o desarmamento à saída das forças israelenses. Netanyahu inverteu a ordem: o desarmamento vem primeiro, a retirada depois. Ele afirmou ainda que o governo americano enviou uma minuta ao seu gabinete e que Israel não concordou com o texto, tendo devolvido comentários.
O Conselho de Paz sustentou publicamente a leitura do premiê ao declarar que a retirada das forças israelenses além da chamada linha amarela, a demarcação entre a área ocupada e o restante do território, não ocorrerá antes do desarmamento completo. Uma primeira versão dessa mensagem, depois corrigida, falava em retirada total.
No mesmo dia, o Qatar, um dos países mediadores, acusou o governo israelense de atrasar deliberadamente a aplicação do plano. Segundo o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores catari, a intensificação dos bombardeios nos últimos dias seria uma tentativa de descarrilar o acordo e de bloquear soluções pacíficas. Na véspera, Qatar, Egito e Turquia haviam divulgado nota conjunta condenando o que chamaram de violações contínuas de Israel, com menção a ataques a centros e infraestruturas de saúde e a mortes de civis, entre eles mulheres e crianças. Cerca de 20 pessoas morreram nos bombardeios citados. Dentro do próprio governo israelense, ministros de extrema direita pediram uma votação para anular o acordo, sob o argumento de que ele não corresponde ao que havia sido discutido inicialmente.
A cobertura de centro, que é a base deste relato, tratou o episódio como impasse de implementação: colocou lado a lado a fala do premiê, a resposta dos mediadores e a nota do colegiado americano, sem aderir a nenhuma das versões. Não houve, neste conjunto de fontes, cobertura de veículos de esquerda nem de direita. Pelos eixos habituais de cada lado, veículos de esquerda tendem a organizar a história em torno do custo humano do bombardeio e da acusação de violação do direito internacional humanitário levantada pelos mediadores, tratando a exigência de desarmamento prévio como condição que prolonga a ocupação. Veículos de direita tendem a colocar o desarmamento da facção no centro, lendo a resistência em entregar armas como prova de que a segurança de Israel não pode depender de promessa, e a pressão dos mediadores como desequilíbrio a favor do grupo armado.
O que ainda não se sabe é o essencial da negociação. Não há prazo público para o início da entrega de armas, nem definição de quem fiscaliza o processo além da menção genérica ao comitê tecnocrático que administraria Gaza. Também não está claro se o gabinete israelense levará o acordo a voto, o que o governo americano fará diante da recusa formal à minuta e se os bombardeios serão suspensos enquanto a negociação continua.