O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, negou publicamente ter aceitado o plano para a Faixa de Gaza apresentado pelo Conselho da Paz, órgão criado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para supervisionar o fim da guerra e a reconstrução do enclave. Em vídeo divulgado em suas redes sociais na noite de terça-feira, o premiê classificou a proposta como um rascunho, afirmou que o documento não é o texto de Israel e disse que enviou observações aos negociadores americanos. Foi a primeira manifestação direta do chefe de governo israelense desde o anúncio do plano de vinte pontos, feito na semana anterior.
A proposta prevê a entrega das armas pelo Hamas, a criação de uma administração palestina tecnocrática, o envio de uma força internacional de estabilização e a retirada gradual das tropas israelenses à medida que o desarmamento avance. O grupo que governa Gaza desde 2007 confirmou a adesão ao entendimento poucas horas depois do anúncio. Do lado israelense, a resposta foi de recuo: um representante do gabinete já havia dito, na véspera, que o texto não reflete as posições de Israel.
Toda a cobertura converge em alguns pontos. Netanyahu condicionou expressamente qualquer retirada ao desarmamento completo do Hamas, dizendo que não recuará das posições atuais e que as Forças de Defesa de Israel farão o necessário para proteger o país. As forças israelenses controlam hoje entre 60% e 70% do território da Faixa, com postos de controle, barreiras e bases. Após reunião em Jerusalém, o Conselho da Paz publicou que a retirada para além da chamada Linha Amarela, que demarca a área sob controle israelense, ocorrerá apenas quando o descomissionamento do arsenal estiver concluído, concessão que atende à exigência do premiê. As reportagens também registram que dois ministros de extrema direita pediram nova votação do gabinete de segurança sobre o plano e que Netanyahu disputa as primárias de seu partido de olho nas eleições marcadas para 27 de outubro.
As divergências aparecem na ênfase. A cobertura de centro dedicou espaço ao custo humano do impasse, relatando que a insatisfação israelense com o plano se traduziu em bombardeios ao longo do fim de semana, apesar do cessar-fogo em vigor desde outubro do ano passado, com 18 mortos apenas no domingo, entre eles uma criança de 9 anos, além de destruição de suprimentos médicos denunciada pelo enviado do Conselho da Paz. Já os veículos de direita concentraram o relato no ceticismo israelense quanto à disposição do Hamas de entregar todo o arsenal, na declaração do chefe do Estado-Maior de que o Exército seguirá atuando de maneira proativa para impedir a formação de uma ameaça na fronteira, e na memória do ataque de 7 de outubro de 2023 como justificativa da cautela; nesse enquadramento, a garantia obtida sobre a sequência entre desarmamento e retirada aparece como ganho negociador. A leitura de esquerda teve presença marginal na cobertura brasileira desta story, e o ângulo que esse campo costuma privilegiar, o da responsabilidade pelo prolongamento da ocupação e pelas mortes de civis sob cessar-fogo, apareceu sobretudo diluído nos trechos factuais das matérias de centro, sem análise dedicada.
Há ainda a leitura política doméstica. Um pesquisador israelense ouvido pelas reportagens avaliou que o pedido de nova votação feito pelos ministros deve ser lido como manobra de campanha para pressionar o premiê, e que, na prática, Israel tem dificuldade de rejeitar o plano diante do isolamento do país no cenário internacional. Um especialista em Oriente Médio ponderou que aceitar o acordo, com ministros e líderes da oposição contrários, poderia comprometer as chances de reeleição de Netanyahu.
O que ainda não se sabe é considerável. Nem a Casa Branca nem o Hamas se pronunciaram sobre a alteração que condiciona a retirada ao desarmamento completo, e não há cronograma público para as etapas do plano. Também não está definido se o gabinete de segurança israelense fará nova votação, o que Israel apontou exatamente nas observações enviadas aos americanos, nem como será verificada a entrega das armas, uma vez que o grupo palestino já sinalizou disposição de abrir mão apenas do armamento pesado e em fase posterior. A sequência entre desarmamento e retirada segue sendo o principal obstáculo à implementação.