O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, suspendeu na quinta-feira (13) o processamento de novos registros no Sistema de Filiação Partidária, conhecido como Filia, a plataforma da Justiça Eleitoral que controla o vínculo entre eleitores e partidos. A decisão veio horas depois de o senador Flávio Bolsonaro, candidato do Partido Liberal à Presidência da República, aparecer desfiliado da própria legenda e registrado no Partido Missão, situação que travou o pedido de registro da sua candidatura a três dias do prazo final.
Antes de suspender o processamento, o ministro determinou o restabelecimento da filiação do senador ao Partido Liberal, a exclusão do vínculo com o Missão do histórico partidário e a liberação imediata do sistema para que a legenda protocolasse a candidatura. Nunes Marques também mandou preservar os registros de log e de acesso à plataforma e enviar o processo à Polícia Federal, para apurar a autoria, as circunstâncias e o contexto do registro, além de encaminhar representação à Procuradoria Geral Eleitoral. Segundo o tribunal, houve ainda uma tentativa não efetivada de alterar a filiação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e o ministro ordenou que se investiguem movimentações semelhantes envolvendo outros candidatos à Presidência.
Os três lados da cobertura convergem no essencial. A cobertura de centro relatou a cronologia com as notas oficiais na íntegra: a desfiliação e o novo registro apareceram no sistema em 12 de agosto, a correção saiu na tarde do dia 13 e o prazo para registro das chapas termina às 19h de sábado, 15 de agosto. Veículos de esquerda destacaram a versão do tribunal de que não houve hackeamento da plataforma, e sim uso indevido da ferramenta por alguém que possuía credenciais da própria legenda, e deram peso ao fato de a tentativa ter alcançado também o presidente da República, o que afasta a leitura de ataque dirigido a um único campo. Veículos de direita enfatizaram o efeito prático sobre o candidato, que ficou impedido de registrar a candidatura presidencial por um ato que não praticou, e reproduziram sua afirmação, publicada nas redes sociais, de que a filiação foi fraudada e de que haveria uma tentativa de pará-lo.
A divergência aparece no que cada lado escolhe como causa. Na leitura à esquerda, o caso é de segurança e governança de um sistema público crítico: se credenciais legítimas de um partido podem mover o vínculo partidário de um cidadão, o reparo é de controle de acesso, auditoria e rastreabilidade, e a resposta institucional foi rápida, com restabelecimento do vínculo, suspensão preventiva e acionamento da Polícia Federal. Na leitura à direita, o eixo é a responsabilização e o risco político concreto: um presidenciável quase perdeu o prazo de registro, a correção só veio depois de a campanha acionar o tribunal e de o caso ganhar repercussão, e a suspensão geral das filiações soa como remédio tardio para uma vulnerabilidade que já estava aberta.
Há também disputa sobre a própria narrativa de fraude. O Partido Missão afirmou em nota que foi vítima de uma tentativa de filiação fraudulenta, que tentou cancelar o registro no mesmo dia e teve a ação rejeitada pelo tribunal, e que havia avisado o gabinete do senador desde 2 de agosto, com e-mails abertos e não respondidos. O candidato do Missão à Presidência, Renan Santos, sustentou publicamente que é possível comprovar que alguém, usando o e-mail do senador, confirmou a filiação e acessou o aplicativo de militância do partido. A legenda anunciou que entregará relatório com logs, e-mails e endereços de IP às autoridades e à imprensa.
O que ainda não se sabe é quem operou as credenciais e com qual finalidade, se houve participação de pessoas ligadas ao gabinete do senador, se as alegações técnicas do partido resistem à perícia, e por quanto tempo o processamento de novas filiações ficará suspenso às vésperas do encerramento do prazo de registro. Também não há, até aqui, manifestação da Polícia Federal sobre a abertura do inquérito nem detalhamento sobre quantos outros vínculos partidários podem ter sido alterados pela mesma via.