A menos de três meses do primeiro turno das eleições de 2026, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva atravessa uma semana de forte tensão institucional em três frentes simultâneas: o Tribunal Superior Eleitoral, o Supremo Tribunal Federal e o Congresso. O eixo comum é a proximidade da disputa e o cuidado do Palácio do Planalto em não abrir flancos jurídicos que possam ser explorados pela oposição.
Na frente eleitoral, o Planalto orientou ministérios, secretarias e autarquias a cumprir integralmente as restrições do chamado defeso eleitoral, período iniciado no sábado, 4 de julho, em que órgãos públicos ficam submetidos a regras mais rígidas para impedir o uso da máquina pública em favor de candidaturas. Entre as proibições estão a publicidade institucional, determinadas contratações e transferências voluntárias de recursos. A Advocacia-Geral da União elaborou um manual com normas, incluindo cuidados com publicações em redes sociais, e pediu que ministros evitassem entrevistas às vésperas do início do período. Veículos de direita enfatizaram que a cautela busca evitar ofensivas judiciais por propaganda irregular, sobretudo por parte da equipe do senador Flávio Bolsonaro, retratando o governo como preocupado em não ser flagrado no TSE.
A segunda frente, mais delicada, opõe o Executivo a parte do Supremo. A cobertura de centro, atribuída à coluna da repórter Malu Gaspar, em O Globo, relatou que o ministro André Mendonça alertou integrantes do governo, nos bastidores, sobre o risco de a ordem do Ministério da Justiça para o retorno de mais de cem delegados da Polícia Federal cedidos à administração pública atingir também o STF. Segundo esse relato, caso a medida alcançasse a Corte, poderia ser interpretada como tentativa de obstrução de Justiça. Atualmente, quatro delegados auxiliam ministros do Supremo, dois deles no gabinete de Mendonça, relator dos casos Master e das fraudes no INSS. Mais de 50 órgãos já foram notificados a devolver policiais, mas o Supremo não recebeu o ofício até o momento.
O governo sustenta que a recomposição de efetivo visa reforçar o combate ao crime organizado. A cobertura de centro registrou, porém, que no Supremo essa justificativa foi recebida com desconfiança, sob a leitura de que a retirada dos delegados poderia comprometer investigações sensíveis em ano eleitoral. O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, afirmou que o retorno dos policiais cedidos ao STF ainda está em avaliação. Veículos de direita destacaram o pano de fundo das investigações do INSS, que citam o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente, cuja defesa nega qualquer envolvimento no esquema.
Na terceira frente, no Congresso, a cobertura de direita relatou que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, não deve pautar o projeto que regulamenta a educação domiciliar, o homeschooling, defendido pela oposição, gesto interpretado como novo aceno de distensão ao Planalto, ainda que os dois acumulem atritos desde o fim do ano passado. A leitura predominante de esquerda nesse ponto é de que barrar a pauta protege a agenda educacional pública frente a uma bandeira conservadora.
Não foi possível confirmar se a ordem do Ministério da Justiça de fato alcançará o Supremo, nem se há ação concreta em preparação no TSE. O gabinete de André Mendonça, procurado, não se manifestou, e o desfecho das investigações que envolvem o entorno do presidente segue em aberto.