O primeiro debate entre candidatos à Presidência da República do ciclo de 2026 foi realizado no último domingo, 23 de agosto, e abriu a temporada eleitoral com uma cena inédita: nenhum dos quatro candidatos que subiram ao palco tinha 10% das intenções de voto nas principais pesquisas. Lula e Flávio Bolsonaro, que lideram os levantamentos, não compareceram. Romeu Zema também faltou. Entre os presentes estavam Caiado, Renan e Cury.
A ausência dos favoritos não é ruptura, e sim continuidade. Jânio Quadros recusou o primeiro convite da televisão brasileira, em 1960. Fernando Collor evitou debater no primeiro turno de 1989. Fernando Henrique Cardoso não participou de nenhum debate na campanha de reeleição de 1998. Lula faltou aos debates de primeiro turno em 2006 e repetiu a ausência em 2022. Jair Bolsonaro deixou de comparecer em 2018, depois da facada. Em 2022, dois debates de primeiro turno foram simplesmente cancelados quando os dois candidatos mais bem colocados avisaram que não iriam.
A regra em vigor ajuda a explicar o padrão. A legislação eleitoral obriga as emissoras a convidar candidatos de partidos com cinco ou mais deputados eleitos, mas não obriga nenhum candidato a comparecer. Faltar, portanto, custa pouco, e o candidato mantém a liberdade de escolher a plateia e descartar a audiência incômoda sem prejuízo eleitoral evidente.
O contraste internacional é o eixo da comparação apresentada. Na Argentina, o debate presidencial virou lei e a ausência implica punição. No México, o Instituto Nacional Eleitoral, órgão autônomo e sem vínculo com emissoras, organiza os debates desde 1994. Na Espanha, a Academia de Televisión conduz o formato, e uma reforma de 2025 tornou os debates obrigatórios nas emissoras públicas. Na França não há lei, e sim uma tradição iniciada em 1974 de confronto televisivo entre os dois finalistas do segundo turno. Nos Estados Unidos, desde 1976, é praticamente impensável que um indicado dos dois grandes partidos não debata, mesmo com as regras mudando a cada ciclo, como em 2024, quando as campanhas negociaram diretamente com as emissoras. O padrão apontado é que, onde existe uma autoridade eleitoral ou uma instituição neutra concentrando poucos debates de alto peso simbólico, faltar sai caro.
Duas rotas são colocadas para o Brasil, e não são excludentes. A primeira é a via argentina: uma lei que obrigue e puna a ausência com a moeda que mais importa em campanha, o tempo de televisão. A segunda é a via mexicana e espanhola: um organismo único, técnico e sem interesse comercial na audiência, substituindo a competição entre emissoras por um punhado de debates que realmente contem.
A cobertura disponível até aqui é de fonte única. O episódio foi tratado por um único veículo, de perfil de centro, em formato de coluna analítica assinada, que enquadrou o caso como problema de desenho de incentivos e não como disputa partidária. Veículos de esquerda e veículos de direita não trataram do assunto no material reunido, de modo que não há enquadramentos concorrentes a comparar neste momento. O que existe é uma leitura institucional, apoiada em precedentes históricos brasileiros e em modelos estrangeiros, sem contraditório das partes citadas.
O que ainda não se sabe é relevante. As campanhas de Lula, de Flávio Bolsonaro e de Romeu Zema não apresentaram, no material disponível, justificativa pública para a ausência. Não há indicação de projeto de lei em tramitação para tornar o comparecimento obrigatório antes do primeiro turno de 2026, nem de acordo entre emissoras para unificar as transmissões. Os números das pesquisas citadas e os institutos responsáveis por elas também não foram detalhados, o que impede aferir a distância exata entre os candidatos presentes e os ausentes.