A investigação da Polícia Federal sobre Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, deixou de ser um problema restrito à família presidencial e entrou na disputa eleitoral. No centro do caso está a tentativa de vender ao Ministério da Saúde 1,2 milhão de frascos de 36 tipos de medicamentos à base de canabidiol, sem licitação, negócio estimado em 626 milhões de reais que nunca se concretizou. A minuta do contrato e o plano de negócio foram encontrados por investigadores nos celulares da advogada Roberta Luchsinger e do empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, e tinham como destinatário Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, chefe de gabinete pessoal do presidente até julho.
Há um núcleo de fatos em que as coberturas convergem. Roberta Luchsinger transitava com facilidade por Brasília: esteve 42 vezes em órgãos do governo federal entre janeiro de 2023 e abril de 2024, e em 41 dessas ocasiões a visita não constou de agenda oficial. Ela repassou 249 mil reais a Marco Aurélio Santana Ribeiro, que descreve o valor como empréstimo já quitado, e tratou com ele da compra de joias. Antônio Carlos Camilo Antunes pagou passagens e hospedagem de Fábio Luís em viagem a Portugal, onde os dois prospectaram fornecedores para os frascos de canabidiol. Nenhum frasco foi comprado, o canabidiol não integra o rol de medicamentos do Sistema Único de Saúde e não há denúncia formal contra o filho do presidente. O presidente afirmou que não pretende interferir na apuração e que o filho deve provar sua inocência. A defesa, que por mais de um ano trabalhou para manter o caso longe dele, admitiu que Fábio Luís, residente na Espanha, venha ao Brasil prestar esclarecimentos.
A divergência começa no enquadramento. Veículos de direita organizaram o material em torno da tese de uma tentativa de contenção do desgaste: destacaram o pedido do procurador-geral da República, Paulo Gonet, para que o inquérito sobre suposto tráfico de influência saia do Supremo Tribunal Federal e desça à primeira instância, a abertura de uma apuração sobre o vazamento de dados do investigado à imprensa, a reunião entre o advogado do filho do presidente e o próprio presidente da República e a hipótese, atribuída a integrantes da Polícia Federal, de uma eventual busca e apreensão na reta final do primeiro turno. Nessa leitura, o ponto politicamente decisivo é que a suspeita não trata de negócio privado isolado, e sim do uso de relações dentro do governo para intermediar contratos com a administração federal, o que devolve a corrupção ao centro da campanha.
A cobertura de centro colocou o episódio numa moldura mais ampla, a da promiscuidade entre dinheiro, governo e Judiciário, e distribuiu os exemplos por todos os campos: parecer contratado a um ex-ministro do Supremo Tribunal Federal antes de ele assumir o Ministério da Justiça, honorários milionários pagos por um banqueiro à banca de advocacia da mulher de um ministro da corte, a suspensão de multas de uma empreiteira decorrentes de acordo de leniência e negócios envolvendo um senador da oposição e o mesmo banqueiro. Nessa chave, o caso do canabidiol é sintoma de um sistema de acesso privilegiado, e a ironia recai sobre a estratégia de blindagem jurídica que adiou por meses uma explicação que poderia ter sido dada antes. Veículos de esquerda não registraram o episódio no material reunido até aqui, de modo que não há, neste conjunto, uma leitura desse campo sobre o caso.
Restam lacunas relevantes. Não se sabe se o inquérito ficará no Supremo Tribunal Federal ou descerá à primeira instância, nem quando a corte decidirá. Não está esclarecido se houve efetivo repasse da comissão de 20% negociada sobre o contrato, já que o negócio não avançou, nem se o então chefe de gabinete sabia da origem do dinheiro que recebeu. Também não há data definida para o retorno de Fábio Luís Lula da Silva ao Brasil, nem manifestação pública dos demais investigados sobre as mensagens divulgadas.