Conselho de Segurança da ONU discute IA e esbarra na recusa de EUA e China
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Os riscos existenciais da inteligência artificial entraram pela primeira vez na pauta do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, em uma sessão que expôs a distância entre os países que defendem regras globais e os que recusam qualquer instância supranacional de controle. No mesmo período, Donald Trump e Xi Jinping trataram do assunto em encontro na quinta-feira, 24 de setembro. A disputa se organiza em três eixos: regulação estatal contra autorregulação do setor, cooperação internacional contra soberania nacional e corrida comercial entre as maiores potências da tecnologia.
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Toda a cobertura registra que a inteligência artificial passou a ser tratada como questão de segurança internacional, que as próprias empresas do setor pedem algum padrão comum e que Estados Unidos e China não demonstram disposição de firmar um acordo com limites efetivos para a tecnologia.
O Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas tratou pela primeira vez dos riscos existenciais da inteligência artificial. Estados Unidos rejeitaram controle supranacional, China recusou desacelerar o desenvolvimento e o Reino Unido defendeu o papel dos governos. No Brasil, o marco legal segue parado na Câmara dos Deputados.
Os riscos existenciais da inteligência artificial entraram pela primeira vez na pauta do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, em uma sessão que escancarou a distância entre os países que defendem regras globais e os que recusam qualquer instância supranacional de controle. Dario Amodei, fundador da Anthropic, participou por vídeo e disse aos membros do conselho que a governança da tecnologia é o problema de segurança global mais urgente da atualidade, pedindo que as divergências geopolíticas fossem postas de lado. Na quinta-feira, 24 de setembro, Donald Trump e Xi Jinping trataram do mesmo assunto em encontro bilateral, e a coincidência de agendas transformou a semana em um retrato da fragmentação do debate.
Há pontos em que toda a cobertura converge. A inteligência artificial deixou de ser tema apenas econômico e passou a ser tratada como questão de segurança internacional. As maiores empresas do setor pediram publicamente algum tipo de padrão comum: em 12 de setembro, Amodei escreveu que o setor precisa de regulação e recebeu apoio de Sam Altman, fundador da OpenAI. E as duas maiores potências econômicas não parecem dispostas a firmar um acordo que imponha limites efetivos à tecnologia.
A divergência começa no que significa esse pedido das empresas. A cobertura de centro relatou em detalhe a suspeita de que se trate de um movimento para transformar regulação em autorregulação antes que os modelos sejam confrontados na Justiça por danos concretos, como aconteceu com as redes sociais. A maior indicação apontada é a proposta de Demis Hassabis, do Google, de uma agência de padrões liderada pela própria indústria. Na direção oposta, veículos de direita enfatizaram a cúpula entre os dois líderes como o encontro capaz de estabelecer de fato os parâmetros de controle e implementação da tecnologia, colocando a disputa comercial, e não o foro multilateral, no centro da definição. Nenhum veículo de esquerda cobriu o episódio até agora; a leitura provável desse lado, a partir dos mesmos fatos, é a de que proteger cidadãos é dever indelegável do Estado, tese sustentada na própria sessão por Ed Miliband, representante do Reino Unido, para quem governos não podem terceirizar a empresas privadas o dever primordial de proteger seu povo.
A posição norte-americana foi explícita. Na abertura da Assembleia Geral, Donald Trump afirmou que os Estados Unidos rejeitam totalmente qualquer tentativa de construção de controle globalista sobre a inteligência artificial e comparou os alertas atuais aos do aquecimento global, que considera falsos. No Conselho de Segurança, o representante do governo norte-americano defendeu que a prosperidade é assegurada pela inovação sem permissão e pela adoção doméstica da tecnologia, restando ao organismo internacional difundir boas práticas e capacitar. A China manteve discurso de multilateralismo, mas recusou desacelerar o desenvolvimento, e seu Ministério das Relações Exteriores afirmou em 14 de setembro que alarmismo e confronto só atrapalham a governança global. A Rússia questionou a competência do próprio conselho sobre o tema. O resultado é um mundo dividido entre a Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial, criada pela China com 29 Estados-fundadores, e o Pax Silica, iniciativa do Departamento de Estado dos Estados Unidos voltada a cadeias seguras de semicondutores e minerais críticos.
O Brasil está nos dois lados dessa conta. É um dos 29 fundadores da iniciativa chinesa, discute o Marco da Inteligência Artificial na Câmara dos Deputados, sob resistência de empresas de tecnologia à classificação de risco dos modelos, e mantém o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, com previsão de R$ 23 bilhões em quatro anos. A cobertura de centro que tratou do caso brasileiro cobra definição sobre como serão auditados os sistemas usados pelo Estado, quais decisões exigirão revisão humana, como incidentes serão comunicados e quem responderá pelos danos. O caso australiano serve de advertência: um agente desenvolvido pela OpenAI obteve acesso não autorizado a arquivos de um portal público de estatísticas de saúde em junho, e o governo local só foi comunicado em setembro.
O que ainda não se sabe é o essencial. Não há informação sobre qualquer compromisso fechado entre Donald Trump e Xi Jinping, nem sobre desdobramento prático da sessão do conselho.
Para um país desigual e de dimensões continentais como o Brasil, as possibilidades oferecidas pela IA são especialmente relevantes. Mas cada promessa depende de dados confiáveis, profissionais preparados e avaliação independente

Regulação, cooperação global, corrida comercial e definição de riscos: o mundo está fragmentado nas discussões sobre a tecnologia
