Segurança pública consumiu R$ 163 bilhões em 2025 e vira pauta eleitoral
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O crescimento do orçamento de segurança pública não é neutro: ele financia um modelo específico, centrado no confronto e no policiamento ostensivo, e cobra o preço em áreas que atendem diretamente a população mais pobre. Em 2024, quase metade dos R$ 109 bilhões gastos por 24 estados com segurança e sistema prisional foi para as polícias militares, R$ 52,2 bilhões, enquanto as polícias civis, encarregadas da investigação, ficaram com R$ 20,2 bilhões, e as técnico-científicas, com R$ 2,5 bilhões. O desequilíbrio se repete na ponta social: para cada R$ 4.877 destinados às polícias, o poder público reservou R$ 1 para políticas de reinserção de egressos do sistema prisional. O Rio de Janeiro concentra a contradição. O estado deve gastar R$ 19,4 bilhões com segurança em 2026, mais que com saúde e educação, e ainda registra o maior número de policiais mortos do país, um dos piores índices de letalidade policial, a maior taxa de roubos e um dos piores índices de esclarecimento de assassinatos. Para especialistas ouvidos na reportagem, é o próprio planejamento orçamentário que escolhe comprar armamento, blindados e helicópteros e encher o sistema prisional com autores de pequenos delitos, em vez de investigar traficantes de armas, autores de homicídios e operadores financeiros do crime organizado. No Congresso, a lógica se repete: o artigo 139 da PEC da Segurança Pública prevê retirar até R$ 1,3 bilhão de saúde, educação e esporte para bancar a proposta, transferindo para as políticas sociais a conta de um modelo que já se mostrou incapaz de proteger as comunidades mais vulneráveis.
O Brasil gastou R$ 163 bilhões com segurança pública em 2025, o maior valor da série histórica acompanhada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública desde 2016, segundo a edição mais recente do Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
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As duas coberturas partem dos mesmos números e não os disputam: o gasto com segurança pública é o maior da série histórica, a PEC da Segurança Pública acumula 48 emendas no Senado e o artigo 139 prevê retirar até R$ 1,3 bilhão de saúde, educação e esporte para financiar a proposta. Ambas tratam a segurança como tema decisivo das eleições de 2026.
O Brasil destinou R$ 163 bilhões à segurança pública em 2025, o maior valor da série do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. A PEC da Segurança Pública, já aprovada pela Câmara, agora divide o Senado. Aqui está como o centro e a esquerda enquadram o gasto, e o que a direita ainda não cobriu.
O dinheiro que o Brasil reserva para segurança pública, e sobretudo o que esse dinheiro compra, voltou ao centro da disputa política a poucos meses das eleições gerais de 2026. A edição mais recente do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicação do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mostra que o país destinou R$ 163 bilhões à área em 2025, o maior valor da série histórica acompanhada desde 2016. Os estados, que comandam as polícias militares, civis, técnico-científicas e penais, responderam por R$ 131,25 bilhões, o equivalente a 80,5% do total. A União, responsável pela Polícia Federal e pela Polícia Rodoviária Federal, aportou R$ 18,09 bilhões, e os municípios, cada vez mais equipados com guardas municipais, entraram com R$ 13,77 bilhões.
Enquanto o gasto cresce, o Senado analisa a PEC da Segurança Pública, já aprovada pela Câmara dos Deputados. A proposta acumula 48 pedidos de emenda e é o segundo item da pauta de uma reunião extraordinária da Comissão de Constituição e Justiça. O centro da discussão é o artigo 139, que não constava do texto original e prevê cortes em áreas sociais como saúde, educação e esporte que podem chegar a R$ 1,3 bilhão para financiar a medida. O relator na comissão, o senador Rogério Carvalho, do PT de Sergipe, havia anunciado parecer favorável à proposta na forma enviada pela Câmara e passou a reconsiderar a posição.
A cobertura de centro concentrou-se justamente nessa tramitação, registrando o recuo do relator, o volume de emendas, o dispositivo em disputa e a data da votação, sem tomar partido sobre o mérito do financiamento. É o retrato do processo legislativo em curso, e nele o número de emendas funciona como termômetro da resistência que o texto encontrou no Senado.
Veículos de esquerda foram além do trâmite e trataram o orçamento como escolha política. Segundo essa cobertura, o aumento do gasto financia um modelo específico de segurança, baseado no confronto e no policiamento ostensivo. Um estudo da plataforma Justa, entidade civil que monitora o orçamento do sistema de Justiça, identificou que, em 2024, as polícias militares ficaram com R$ 52,2 bilhões dos R$ 109 bilhões gastos por 24 estados com segurança e sistema prisional, enquanto as polícias civis, encarregadas da investigação, receberam R$ 20,2 bilhões, e as técnico-científicas, R$ 2,5 bilhões. O mesmo levantamento aponta que, para cada R$ 4.877 destinados às polícias, o poder público reservou R$ 1 para políticas de reinserção de egressos do sistema prisional. O caso citado como emblemático é o do Rio de Janeiro, que deve gastar R$ 19,4 bilhões com segurança em 2026, acima da saúde, com R$ 13,5 bilhões, e da educação, com R$ 10,9 bilhões, e ainda registra o maior número de policiais mortos do país, um dos piores índices de letalidade policial e um dos piores índices de esclarecimento de assassinatos.
Veículos de direita não publicaram material sobre o assunto até o fechamento desta edição, o que deixa fora do debate a leitura habitual desse campo, centrada na eficiência do gasto e na cobrança de resultado. Os próprios dados do levantamento dão material para essa chave de leitura: o gasto subiu 38,4% na região Norte e 32,5% no Nordeste em cinco anos, quase dobrou no Piauí, com alta de 93,2%, e cresceu 89,9% no Acre, hoje o estado com maior gasto por habitante, R$ 1.486,52. Uma pesquisa do instituto Quaest indica que 66% dos eleitores do Rio de Janeiro consideram a segurança a pior área do atual governo estadual, que é chefiado interinamente pelo desembargador Ricardo Couto, presidente do Tribunal de Justiça fluminense, após uma crise sucessória.
O que ainda não se sabe é qual será o parecer final do relator na Comissão de Constituição e Justiça e se o artigo 139 permanecerá no texto da PEC. Também não está definido quais programas de saúde, educação e esporte perderiam recursos, nem quantas das 48 emendas serão acatadas. Não há, nas matérias, resposta das secretarias estaduais de segurança e das polícias militares às críticas ao modelo ostensivo, e o estudo sobre o orçamento estadual não obteve dados de Roraima, Maranhão e Piauí. Falta ainda demonstração de que a mudança na distribuição do dinheiro reduziria homicídios e roubos, questão que segue em aberto às vésperas de uma eleição em que a segurança aparece como prioridade dos eleitores.

Gastos com a área subiram a R$ 163 bilhões em 2025, enquanto segurança é tratada como sinônimo de confronto e militarismo
