O Peru entrou em uma zona de turbulência política a poucos votos do desfecho de uma das eleições presidenciais mais acirradas de sua história. Em 23 de junho de 2026, o candidato de esquerda Roberto Sánchez declarou que não reconhecerá o resultado do segundo turno, realizado em 7 de junho, alegando que houve fraude na apuração. Sua adversária, a conservadora Keiko Fujimori, mantinha uma vantagem mínima: 50,11% dos votos contra 49,89%, com 99,72% das urnas já contabilizadas.
Em entrevista coletiva, Sánchez afirmou que "há uma fraude em curso" e acusou a autoridade eleitoral peruana, a Onpe, e a campanha de Fujimori de irregularidades nos votos registrados no exterior, que favoreceram amplamente a candidata. "Não reconheceremos um governo Fujimori", declarou. Em seguida, convocou seus apoiadores a irem às ruas e marcou novas manifestações para o sábado seguinte, dia 27. A Onpe, o Júri Nacional de Eleições do Peru e a própria campanha de Fujimori não responderam de imediato aos pedidos de comentário.
Os três relatos convergem sobre o quadro factual. Sánchez liderava a disputa no início, à medida que os votos das áreas rurais eram contabilizados, mas Fujimori reduziu a diferença quando os votos do exterior começaram a ser processados. Diante de uma disputa tão apertada, os dois candidatos haviam evitado declarar vitória ou admitir derrota até que 100% das urnas fossem apuradas. No Congresso, o partido de Fujimori terá a maior bancada, com 41 cadeiras na Câmara e 22 no Senado; o partido de Sánchez, Juntos pelo Peru, ficou em segundo, com 32 cadeiras na Câmara e 14 no Senado. Fujimori, filha do falecido ex-presidente Alberto Fujimori, disputa a presidência pela quarta vez.
A cobertura de centro, como a da CNN Brasil, tratou o episódio de forma estritamente factual, atribuindo a alegação de fraude diretamente ao candidato e acrescentando contexto sobre a distribuição de governos de direita e esquerda na América do Sul. Veículos de direita, como InfoMoney e Valor, enfatizaram que a apuração seguiu por semanas o rito legal e que a vantagem de Fujimori, ainda que estreita, foi obtida dentro das regras, sugerindo que contestar o resultado sem provas concretas aprofunda o risco de crise institucional. Veículos de esquerda, por sua vez, tendem a enquadrar a virada puxada pelos votos do exterior como fonte legítima de desconfiança, lembrando que Sánchez liderava enquanto se contavam os votos das áreas rurais e populares, e leem a convocação às ruas como mobilização democrática diante de um resultado contestado.
O que ainda não se sabe é decisivo. Nenhuma das fontes apresentou evidências concretas que sustentem ou refutem a acusação de fraude, e os órgãos eleitorais peruanos não haviam se pronunciado. Também permanece em aberto o desfecho da apuração dos votos restantes, o reconhecimento ou não do resultado pelas instituições e a dimensão que as manifestações convocadas para o fim de semana podem alcançar.