Uma pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta semana indica que a percepção sobre segurança pública no Brasil muda de forma acentuada conforme a renda do entrevistado. Entre os brasileiros que recebem até um salário mínimo, 46% afirmam que a segurança da própria família está melhor hoje do que em 2022, contra 37% que consideram o cenário de quatro anos atrás mais favorável. Outros 12% não veem mudança e 6% não souberam responder. Nas faixas de renda superiores, a relação se inverte.
Entre quem ganha de um a dois salários mínimos, 49% apontam 2022 como período mais seguro e 32% avaliam que a situação atual é melhor. Na faixa de dois a cinco salários mínimos, também 49% escolhem 2022, contra 27% que enxergam avanço. Entre os que recebem mais de cinco salários mínimos, 52% dizem que a segurança era melhor há quatro anos e apenas 27% consideram que houve evolução. O levantamento ouviu 2.002 pessoas por telefone entre os dias 31 de julho e 2 de agosto, com margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e nível de confiança de 95%.
Para o CEO do instituto responsável pela pesquisa, Marcelo Tokarski, os números indicam que a avaliação sobre segurança acompanha a posição socioeconômica do entrevistado: nas faixas de menor renda prevalece a sensação de maior proteção em 2026, e, à medida que a renda sobe, cresce a percepção de que a situação era melhor em 2022.
A cobertura do levantamento é restrita até o momento. O único veículo que detalhou os números tem perfil editorial à direita e organizou a reportagem em torno da comparação com 2022, dando destaque ao fato de que a maioria dos entrevistados acima de um salário mínimo considera aquele período mais seguro. A cobertura de centro reunida no mesmo agrupamento não tratou dos dados de segurança: ela abordou outro levantamento, de preços ao consumidor, feito por um órgão estadual de defesa do consumidor em Campo Grande, que apurou variação de até 400% em serviços de barbearia. Nenhum veículo de esquerda havia publicado leitura própria dos números de segurança até o fechamento desta reportagem.
O dado central comporta duas leituras que costumam dividir o debate público brasileiro. De um lado, a ênfase em que a população de menor renda, historicamente a mais exposta à violência letal, é a única faixa em que a maioria relata melhora, o que colocaria em xeque o uso da sensação das camadas altas como termômetro nacional. De outro, a ênfase em que a maioria de todos os estratos acima de um salário mínimo percebe piora em relação a 2022, o que funcionaria como avaliação negativa de desempenho do poder público na área. O material divulgado não arbitra entre as duas leituras.
O que ainda não se sabe é considerável. O levantamento divulgado não traz o resultado agregado nacional, apenas os recortes por faixa de renda, e não detalha cortes por região, sexo, escolaridade ou raça. Também não há confronto entre a percepção declarada e as estatísticas oficiais de criminalidade do período, nem informação sobre quem contratou a pesquisa. Até agora, nenhum outro instituto apresentou dados que confirmem ou contradigam o padrão observado, o que deixa o resultado sem contraponto metodológico.