A Polícia Federal deflagrou na manhã de terça-feira, 23 de junho de 2026, a Operação Miragem contra o Banco Digimais, instituição controlada por um grupo ligado ao bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus e dono da RecordTV. A Justiça Federal em São Paulo autorizou nove mandados de busca e apreensão, a quebra dos sigilos bancário e fiscal dos investigados e o bloqueio de bens e valores de até R$ 670 milhões. A investigação apura crimes contra o Sistema Financeiro Nacional, entre eles gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em demonstrativos contábeis e realização de operações de crédito vedadas.
Segundo a Polícia Federal, administradores do banco teriam criado mecanismos para apresentar uma situação financeira melhor do que a real, com o objetivo de demonstrar boa saúde diante dos órgãos de controle e viabilizar operações irregulares. A cobertura de centro, baseada em apuração de agência, detalhou que o bispo, o Digimais, o BTG Pactual e o Fundo Garantidor de Créditos foram procurados e não responderam até a publicação. Edir Macedo comprou o antigo banco Renner em 2020, rebatizou a instituição de Digimais e transferiu a sede para São Paulo.
Um ponto central da representação da PF é a comparação com o Banco Master, liquidado em 2025. Para os investigadores, o modelo operativo do Master funcionou como paradigma para outras instituições de médio porte, em um efeito de contágio no mercado. O Digimais teria replicado a captação agressiva via Certificados de Depósito Bancário, a manutenção de ativos de baixa liquidez e reavaliações patrimoniais controversas. A investigação aponta cerca de R$ 600 milhões em exposição a carteiras de crédito do Master e uma cessão de créditos de aproximadamente R$ 660 milhões a um fundo, que virou alvo de litígio por suposta ausência de lastro documental.
Veículos de esquerda enfatizaram o papel do Fundo Garantidor de Créditos no centro do caso. Segundo essa cobertura, a PF sustenta que administradores vêm usando a proteção do fundo como subterfúgio para alavancar artificialmente bancos em crise e transferir prejuízos ao sistema financeiro. Nessa leitura, garantias coletivas, criadas para proteger depositantes, estariam sendo apropriadas para socorrer passivos decorrentes de fraudes, um desvio da finalidade da norma. O enquadramento destaca o poder concentrado de um grupo religioso e midiático atuando no setor bancário e a regulação estatal como defesa do interesse público.
Veículos de direita, por sua vez, tendem a enfatizar a dimensão de governança e de accountability institucional. A agência Fitch rebaixou a classificação de risco do Digimais na segunda-feira, véspera da operação, apontando vulnerabilidade para o banco seguir funcionando sem apoio externo, e em seguida retirou todos os ratings por falta de informações confiáveis. A agência citou ainda a troca do CEO e a destituição do Conselho de Administração. Nessa chave, o episódio ilustra o risco moral embutido no uso de garantias públicas para absorver prejuízos de operações mal conduzidas, distorcendo incentivos de mercado, e reforça a responsabilização individual dos gestores.
A cobertura de centro também trouxe dados de auditoria: segundo a Clifton Larson Allen Brasil, o banco investiu cerca de R$ 3 bilhões em fundos cujas demonstrações não puderam ser auditadas, e cotas adquiridas por R$ 357,6 milhões passaram a valer R$ 997,5 milhões em dezembro, gerando resultado positivo de R$ 639,8 milhões sem que se pudesse avaliar a razoabilidade da operação. A PF também relata que direitos creditórios comprados por cerca de R$ 71 milhões foram registrados contabilmente por R$ 741 milhões após sucessivas reavaliações, levando o Banco Central a determinar o retorno ao valor de aquisição.
O que ainda não se sabe: os investigados e o próprio bispo não se manifestaram, e não há, até agora, defesa formal apresentada nos autos. Permanecem em aberto o futuro da tentativa de venda ao BTG Pactual, a eventual participação do FGC no negócio e os desdobramentos das investigações sobre os administradores do banco. O destino da instituição, segundo interlocutores das negociações, está nas mãos do Banco Central.